19 de dez de 2009

Santa-ritenses criam grupo para rediscutir Plano Diretor

[Reportagem de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O Plano Diretor Participativo (PDP) de Santa Rita do Sapucaí será revisto por um grupo de 35 cidadãos que representam 15 segmentos. A nova instância recebeu o nome de Núcleo de Sistematização e foi criada na última terça-feira, 15, durante reunião promovida pela Prefeitura no auditório da Escola Técnica de Eletrônica (ETE). Mais de 180 pessoas participaram do encontro.

O prefeito Paulo Cândido da Silva (PV) e seu vice, David Carvalho Kallás (PSB), explicaram a finalidade do Plano Diretor e citaram exemplos históricos da falta de planejamento urbano em Santa Rita. No início do evento, um vídeo produzido pela Assessoria de Imprensa da Prefeitura expôs alguns efeitos do crescimento desordenado da cidade, como inundações frequentes e pavimentação deficiente.

O prefeito apresentou aos participantes dois servidores do governo mineiro (foto) que se dispuseram a colaborar com a reformulação do PDP: Rômulo Antônio Viegas (engenheiro e subsecretário de Desenvolvimento Regional e Urbano) e Alline Fernandes Corrêa (urbanista e diretora de Fomento da Gestão Urbana). A participação de ambos foi solicitada por Silva depois que a equipe da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), responsável pela elaboração do plano original, se negou a reformular a proposta. O coordenador da equipe, Francisco Antônio Dupas, anunciou a recusa durante uma reunião em que foi duramente criticado por empresários santa-ritenses insatisfeitos com o PDP.

O movimento contra a proposta da Unifei foi articulado, principalmente, por proprietários de imobiliárias e produtores rurais. Os dois grupos se uniram novamente na reunião do dia 15 e demonstraram força no momento da formação do Núcleo de Sistematização. Dos 28 membros escolhidos na terça-feira, 13 possuem ou representam empresas e três são produtores rurais. Duas vagas do núcleo foram reservadas para o setor imobiliário, mas outros dois corretores foram indicados por entidades e o filho de um proprietário de imobiliária representará o setor industrial.

O prefeito tentou aprovar, na mesma reunião, o número de representantes dos segmentos que participarão do Conselho Municipal da Cidade, órgão deliberativo que atuará na elaboração do Plano Diretor e acompanhará sua execução. Os percentuais sugeridos pelo prefeito foram defendidos por Rômulo Viegas e Alline Corrêa, segundo os quais a proposta estaria amparada por uma resolução do Conselho das Cidades. Não houve acordo entre os participantes do encontro e, por isso, a decisão foi adiada.

Os percentuais de representação da Prefeitura (26%), da Câmara Municipal (16%) e das entidades acadêmicas (7%) foram os itens questionados. O proprietário de imobiliária Alex Ander Menezes Capistrano de Alckmin propôs que os poderes legislativo e executivo invertessem seus números para “viabilizar politicamente” a aprovação do PDP, pois a decisão final caberá aos vereadores. A mesma posição foi defendida pelo presidente da Cooperativa Regional Agropecuária de Santa Rita do Sapucaí (CooperRita), Luiz Fernando Ribeiro. Já o advogado Júlio Cezar Caponi ponderou que as instituições de ensino da cidade não devem ficar sub-representadas em função de uma “resolução que orienta, mas não determina”.

Os participantes da reunião aprovaram um cronograma proposto pela administração municipal para a revisão do Plano Diretor. As propostas do Núcleo de Sistematização deverão ser entregues à Prefeitura até 1º de fevereiro de 2010. Em seguida, o Município procederá à análise técnica e jurídica das ideias. O envio do novo projeto de lei à Câmara está previsto para o dia 12 de março. Segundo Alline Corrêa, a “base de trabalho” do núcleo é o documento elaborado pela Unifei, que segundo Rômulo Viegas foi “muito bem feito tecnicamente”.

Instâncias – Em entrevista, o prefeito Paulo Cândido da Silva afirmou ter criado o Núcleo de Sistematização para assegurar a participação dos cidadãos e explicitar seu compromisso com a democracia. Segundo Silva, a primeira providência do núcleo deve ser a indicação de nomes para o Conselho Municipal da Cidade, do qual sairá o documento a ser encaminhado ao prefeito. “O Conselho da Cidade é que tem valor, é que tem força perante a lei”, explica. O conselho foi criado em 2006, mas está inativo. Em junho deste ano, o prefeito instituiu o Núcleo Gestor do PDP, com seis integrantes. A proposta da Unifei prevê a criação de outro órgão: o Conselho Municipal Multidisciplinar.

Foto: Jonas Costa

Núcleo de Sistematização do Plano Diretor

> Poder Executivo Municipal: Marcos Antônio Salvador de Barros, Pedro Sérgio Monti, Daniel Teixeira e Paula Prado Costa

> Associações de moradores: Ivan Gonçalves Ribeiro (zona rural), Deusdete Alves Franco (Amoj), Miguel Garcia Caputo (Amoj) e mais um nome ainda indefinido

> Poder Legislativo Municipal: vereadores Vagner Fernandes Mendes, Hudson dos Reis Carvalho Pinto e Waldecir Maciel Januário

> Indústria e comércio: Roberto de Souza Pinto (Sindvel), César Sodré Moreira de Alckmin (Sindvel) e Fabiana Gontijo Rocha (Acevale)

> Produtores rurais: Luiz Fernando Ribeiro (CooperRita), Leonilton Moreira (Sindicato Rural) e Décio de Almeida Azevedo (CooperRita)

> Instituições de ensino: Júlio Cezar Caponi (Inatel), Ialdo Correia Costa (ETE) e Juceli Costa de Lima (FAI)

> Entidades assistenciais: Marcos Goulart Vilela (Asilo), Sidney Severini Júnior (Maçonaria) e mais um nome ainda indefinido

> Organizações não-governamentais: Isabela Duarte Carneiro e Luciana Aflisio do Couto (Associação dos Amigos do Rio Sapucaí)

> Imobiliárias: Alex Ander Menezes Capistrano de Alckmin e Giovanni Perrotta

> Construção civil: Nakle Mohallem e Maria Zilá Macedo Monti

> Setor operário: Maria Rosângela Lopes (Sindmetsrs) e mais um nome ainda indefinido

> Ordem dos Advogados do Brasil (OAB): José Caponi de Melo

> Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA): Júlio César Costa

> Setor hospitalar: Regina Trevisan (Hospital Maria Thereza Rennó)

> Imprensa: nome ainda indefinido

Luta sem classe

Três importantes reuniões aconteceram nesta semana em diferentes níveis. O planeta acompanhou as intrincadas negociações da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Copenhague (Dinamarca). No Brasil, a capital federal foi escolhida como arena de debates da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). Santa Rita do Sapucaí também sediou um encontro digno de registro: a segunda reunião em menos de 10 dias para definição dos rumos do Plano Diretor Participativo (PDP). Além da simultaneidade, os três eventos revelam mais uma característica em comum, qual seja, o choque entre o poder econômico e o interesse público.

Os ricos adotaram estratégias distintas nos debates de Copenhague, Brasília e Santa Rita. Na conferência do clima, os representantes dos EUA exibiram uma tímida meta de redução das emissões de gases-estufa, bem menor que os cortes propostos pela União Europeia, Japão e Brasil. Na Confecom, em vez de ‘timidez’, os grandes empresários da mídia preferiram o boicote – ausentaram-se dos debates as associações nacionais de rádio e TV (Abert), jornais (ANJ), revistas (Aner), internet (Abranet) e TV por assinatura (ABTA). Em Santa Rita, o empresariado local adotou postura oposta e compareceu em peso à reunião, enquanto seus empregados vertiam o suor matinal.

Os meios de comunicação de abrangência nacional se ocuparão de registrar os desdobramentos de Copenhague e da Confecom, demasiado complexos para caberem num modesto editorial. Resta à imprensa santa-ritense acompanhar detidamente a fase decisiva em que o Plano Diretor entrou na última terça-feira. O prefeito Paulo Cândido da Silva sabe que, ao levar o PDP adiante, ajudará a escrever páginas indeléveis da história do município. Sabe também que não as redigirá sozinho, como repetiu em entrevista aos jornais Gazeta do Vale e O Vale da Eletrônica.

O prefeito desempenha nesse debate uma missão a um só tempo honrosa e espinhosa. Alguns empresários e produtores rurais o querem na posição de ‘magistrado’ – um eufemismo para omisso, palavra que não combina com o estilo franco e responsável do mandatário. Querem um Plano Diretor insípido, inodoro e incolor, isto é, que não prejudique seus interesses. Defendem valores liberais contra fantasmas comunistas que só existem em seus discursos falaciosos. Comportam-se como coronéis da República Velha quando dizem representar a vontade popular.

Os anticomunistas hão de concordar com Karl Marx num ponto: a luta de classes é o motor da história. E pode mover a cidade para longe das mãos de uma elite anacrônica.

12 de dez de 2009

Discussão do Plano Diretor é retomada em reunião tensa

[Reportagem de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Uma reunião conturbada marcou o reinício das discussões do Plano Diretor Participativo (PDP) de Santa Rita do Sapucaí, na última segunda-feira, 7. O encontro foi organizado pela Prefeitura no Centro Vocacional Tecnológico (CVT) e teve a participação de 37 pessoas – em sua maioria, empresários dos ramos imobiliário e eletrônico, produtores rurais e membros da atual administração municipal. Na ocasião, o prefeito Paulo Cândido da Silva (PV) anunciou que o novo texto do PDP deverá ser aprovado por representantes de instituições santa-ritenses no prazo de dois meses. Silva havia encaminhado à Câmara Municipal um projeto de lei criando o plano, mas retirou a proposta para atender a um pedido unânime dos vereadores.

A reunião do dia 7 expôs a insatisfação de alguns setores econômicos com o projeto original do Plano Diretor. O professor Francisco Antônio Dupas, coordenador da equipe que elaborou o documento entre 2006 e 2007, compareceu ao encontro como convidado da Prefeitura, mas acabou interrogado pelos santa-ritenses por quase duas horas. A primeira versão do PDP foi defendida somente por Dupas e pelo diretor da Divisão de Meio Ambiente da Prefeitura, Giancarlo Mendes de Carli. A maioria dos debatedores dirigiu críticas ao conteúdo do plano original e sugeriu regras para a discussão do novo projeto com a sociedade.

Dupas e proprietários de imobiliárias trocaram farpas durante toda a reunião. O professor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) salientou que os corretores de imóveis deflagraram um movimento contra o PDP para defender seus interesses particulares. “Toda vez que a gente mexe com espaço urbano ou rural, a gente mexe com interesses. Esses interesses são traduzidos em dinheiro e poder. É um jogo”, explicou Dupas. O empresário Alex Ander Menezes Capistrano de Alckmin negou que suas críticas tenham caráter exclusivamente classista. “Se o interesse particular meu coincide com o interesse do município, não há mal nenhum nisso. Aliás, sempre o interesse do município vai coincidir com o interesse particular de alguém”.

Outro dono de imobiliária, Giovanni Perrotta, listou supostas falhas da proposição retirada da Câmara e perguntou a Dupas se ele havia lido o documento antes de entregá-lo ao prefeito. O professor respondeu que os itens condenados por Perrotta “não são erros estruturais” e sugeriu a contratação de um revisor. Ao ouvir Giancarlo Carli dizer que o PDP está “muito bem feito”, Alex Capistrano acusou a equipe da Unifei de tê-lo retirado da internet. O prefeito chegou a interromper a discussão para alertar que Dupas não deveria ser “crucificado”.

Francisco Dupas relatou que os anseios da população santa-ritense foram identificados através de questionários distribuídos por sua equipe. O diretor da empresa Estamparia Santarritense, Ricardo Carvalho Rennó, discordou do professor e rotulou de “legislação venezuelana” os artigos que tratam do direito de preempção (preferência à Prefeitura na aquisição de imóveis que lhe interessem). A ideia de se adotar IPTU progressivo para coibir a especulação imobiliária também foi atacada por Rennó. “Quem mais contrariaria essa lei, hoje, é a própria Prefeitura, que tem imóveis não-edificados e subutilizados no perímetro urbano”, afirmou.

A preocupação com a participação popular no novo ciclo de debates foi externada por Dupas. “Resolver o plano dentro desta sala não é previsto na lei”, alertou. O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais, Leonilton Moreira, deixou a reunião dizendo: “Daqui não vai sair nada”. Moreira acabou discutindo com o representante da CooperRita, Décio de Almeida Azevedo, que respondeu: “É desta reunião que vai sair o plano”. Alex Capistrano elogiou o prefeito por ter chamado “as pessoas certas” para a reunião. No entanto, Paulo Cândido da Silva assegurou que haverá amplo diálogo com a sociedade civil sobre o Plano Diretor.

O prefeito esclareceu que o PDP fora redigido antes de sua posse, mas que a atual administração tem se empenhado em transformar o projeto em lei. O assessor de Planejamento da Prefeitura, Yago Euzébio Bueno de Paiva Junho, ressaltou que a aprovação do Plano Diretor é uma “condição fundamental” para que o Município consiga alguns recursos financeiros do governo federal. “Várias verbas não vêm se o Plano Diretor não estiver aprovado”, revelou.

Paulo Silva sugeriu que um novo convênio fosse celebrado entre a Prefeitura e a Unifei. Francisco Dupas, porém, descartou a proposta após ser chamado de “radical” e “louco” por donos de imobiliárias. “Acho melhor a gente ficar fora dessa etapa porque o embate não vai ser construtivo. Espero que não seja mais um plano como o de Itajubá, porque ali imperam os grandes loteadores e a pouca vergonha é generalizada. Espero que vocês não empurrem a cidade para dentro do buraco. Está nas mãos de vocês”, afirmou o professor, dirigindo-se aos participantes da reunião.

Próximo encontro - Uma nova reunião sobre o plano foi marcada para a próxima terça-feira, 15, a partir das 9h, no auditório da Escola Técnica de Eletrônica (ETE). O evento definirá a composição dos grupos de trabalho que irão auxiliar a Prefeitura na elaboração do PDP. Qualquer cidadão pode participar.

Foto: Jonas Costa

Rumos do Plano Diretor

“O Plano Diretor tem que estar adequado à nossa realidade, mas não aos interesses de cada um dos 38 mil habitantes de Santa Rita. Isso é impossível. Temos que tentar construir o mínimo de consenso, mas alguém vai perder e alguém vai ganhar.”
Magno Magalhães Pinto, presidente da Câmara Municipal

“Se compararmos com um produto, [o Plano Diretor] agora está fora de garantia, mas tem conserto. É só contratar um técnico e consertar.”
Roberto de Souza Pinto, presidente do Sindvel

“Estou vendo que a Câmara teve a sabedoria de pedir uma revisão. A discussão é mais que oportuna porque a Câmara está tendo a prudência de discutir com a comunidade antes de fazer a lei.”
José Caponi de Melo, advogado

“Acho que não devemos sair do oito e ir para o oitenta porque nos extremos não está a boa solução. Temos que buscar uma solução equilibrada.”
Marcos Goulart Vilela, empresário

Sociólogo prepara biografia de Ruy Brandão

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

A história da primeira emissora de rádio de Santa Rita do Sapucaí e a vida de seu fundador estão sendo transformadas em livro pelo sociólogo Yago Euzébio Bueno de Paiva Junho. As pesquisas e entrevistas sobre Ruy Brandão (1914-2002) e a Rádio Difusora Santarritense foram iniciadas há um ano e meio. A ideia surgiu depois que Bueno foi eleito para a cadeira número 38 da Academia de Letras, Ciências e Artes da cidade, cujo patrono é ‘Seu Ruy’. O acadêmico percebeu que um discurso, como é praxe na confraria, seria insuficiente para homenagear o patrono.

Para Bueno, o pioneiro da radiodifusão foi também o introdutor da eletrônica em Santa Rita. Segundo as pesquisas do sociólogo, Ruy Brandão criou uma das primeiras oficinas de conserto e montagem de rádios da cidade, no início da década de 1940. O surgimento da empresa Brandotoni teria preparado a população santa-ritense para o que Bueno chama de “cultura tecnológica”. “Quando a ETE [Escola Técnica de Eletrônica] foi criada, em 1959, as pessoas já sabiam minimamente o que era eletrônica. Seu Ruy foi um dos responsáveis por isso”, assinala.

O livro de Yago Bueno terá como título ‘Nas ondas da perseverança’ porque, segundo o autor, a obstinação foi a maior virtude de Ruy Brandão. Esse traço de personalidade ficou mais nítido nos primórdios da Difusora Santarritense. Sob críticas e sem patrocínio, o radialista pioneiro persistiu em seu sonho. Nas primeiras transmissões, em 1946, a rádio ainda era ‘perereca’ (expressão que hoje equivale a ‘pirata’). O estúdio clandestino foi denunciado e, logo depois, impedido de funcionar. A concessão da frequência e a inauguração oficial só aconteceram no ano seguinte.

Seu Ruy começou a entender o funcionamento dos rádios por acaso, enquanto traduzia apostilas em espanhol para o amigo Chiquito Andrade, que havia se matriculado num curso de eletrônica por correspondência. Bueno considera que esse interesse pela tecnologia mudou o rumo da história da cidade. “A Rádio Difusora alterou os padrões culturais de Santa Rita e contribuiu para a integração da população. A cidade era uma antes da Rádio e passou a ser outra depois dela”.

O sociólogo pretende lançar sua obra no segundo semestre de 2010. Bueno antecipa que o livro terá muitas passagens curiosas, como a vinda do pai de Seu Ruy para Santa Rita – José Soares Brandão era um ator português e abandonou sua companhia de teatro ao se apaixonar pela santa-ritense Ordália Dias, durante uma turnê pelo Sul de Minas. Também será narrado o período em que Ruy subia em árvores para chamar a atenção de sua futura esposa, Rosa Morais Brandão. A obra terá, ainda, histórias sobre programas que marcaram época na Difusora AM, como ‘Os brotos comandam’, dos anos 60 e 70.

Foto: acervo particular

4 de dez de 2009

Estação poderá ter oficinas de teatro, mas falta espaço para artesãos

[Reportagem de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O antigo terminal ferroviário de Santa Rita do Sapucaí abrigou um centro de artesanato até março deste ano. O prédio está fechado há quase nove meses e os 118 artesãos que lá expunham suas peças ainda não recuperaram seu espaço. A Estação do Artesanato foi criada em setembro de 2007 por meio de um convênio entre a Prefeitura e a Associação dos Artesãos Santarritenses (Asas do Sapucaí). O documento deixou de vigorar em setembro de 2008 e não foi renovado pela administração municipal.

O imóvel abandonado pertence ao governo federal e foi cedido à Prefeitura em 1990 pela extinta Rede Ferroviária Federal (RFFSA). O termo de cessão autoriza o funcionamento de um centro cultural no prédio por tempo indeterminado. Na época do fechamento da Estação do Artesanato, a Procuradoria Geral do Município alegou que a Asas do Sapucaí não atuava como “casa de cultura” e que faltava uma lei municipal autorizando o uso do imóvel para venda de peças artesanais.

A associação de artesãos suspendeu sua inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) na sexta-feira passada, 27. O último presidente da entidade, Sílvio Simões, aponta a falta de apoio do poder público como principal razão da desativação. Simões diz que a escassez de recursos o obrigou a montar prateleiras com sucata e até com uma porta de guarda-roupa de sua família. Ele relata ter assumido algumas despesas da associação, como material de escritório e contas de água e luz. Para encerrar o CNPJ, segundo o ex-dirigente, foram gastos R$ 500 do próprio bolso.

Embora reclame do prejuízo financeiro, Simões cita o fechamento da associação e a dispersão dos artesãos como suas piores perdas. “Quem mais perdeu foram os artesãos”, comenta. O microempresário Edvaldo Quirino de Souza, que vendia derivados do milho na estação, conta que o fim da associação o fez mudar de ramo, reduziu a renda familiar e interrompeu o curso técnico de um de seus filhos. Para Quirino, o atual governo municipal teria se recusado a apoiar a Estação do Artesanato para não dar continuidade a um projeto inaugurado pelo ex-prefeito Ronaldo Carvalho (PSDB), cassado em 2008. “Mudou o governo, acaba tudo. Quem iria colocar vela em cima de um bolo que a outra administração fez?”

A costureira Emília Soares Pereira também foi prejudicada pela desativação do centro de artesanato. “Eu perdi. Perdi no sentido de não fazer aquilo que gosto. E perdi uma renda que não era uma fortuna, mas ajudava a família”, lamenta. Ela e cinco filhas produzem trabalhos manuais com diferentes técnicas e materiais. Sem espaço para expor e vender as peças, a família guarda em casa dezenas de caixas com bonecas de pano, enfeites de Natal, bonecos de biscuit, jóias e muitos outros artigos de alta qualidade. Emília conta que a comissão de artesanato criada pela Prefeitura em março só a convidou para uma reunião e não produziu resultados práticos.

A comissão foi uma das propostas apresentadas por representantes do governo municipal logo após o fechamento da Estação do Artesanato. Em ofício enviado à Asas do Sapucaí no dia 27 de março, a Divisão de Cultura da Prefeitura comunicou a criação de “uma nova estratégia para a divulgação dos produtos artesanais feitos por artistas da cidade”. Nesse documento foi anunciada a futura instalação de um ponto de informações turísticas no antigo terminal ferroviário, “com a exposição permanente de trabalhos dos artesãos”. Oito meses depois, a administração municipal planeja promover oficinas de teatro na estação, mas ainda não tem metas claras para valorizar o artesanato local.

O coordenador de Cultura da Secretaria Municipal de Educação, Breno Luís Costa de Mendonça, não soube informar à reportagem se a comissão de artesãos tem se reunido. Mendonça desconhece projetos voltados exclusivamente para o artesanato, mas destaca que o setor deve ser beneficiado pelo retorno de Santa Rita ao Circuito Turístico Caminhos do Sul de Minas. Segundo o coordenador de Cultura, a criação do Conselho Municipal do Turismo, com representantes dos artesãos, incentivará a descoberta de uma identidade do artesanato santa-ritense.

O assessor do Poder Executivo Janilton Prado diz que a Prefeitura de Santa Rita pretende criar um projeto semelhante ao Mercado da Arte de Cachoeira de Minas, mas ainda não dispõe de espaço físico para tanto. Prado acredita que os artesãos santa-ritenses precisam se mobilizar para conquistar um novo espaço. “Falta envolvimento, falta vontade de juntar um grupo e vir à Prefeitura para falar assim: ‘Precisamos de um espaço para tantas pessoas’. Aí eu tenho certeza de que a Prefeitura vai arrumar uma solução”.

Oficina de teatro – De acordo com Breno Mendonça e Janilton Prado, as oficinas de teatro na estação deverão ser iniciadas no primeiro semestre de 2010. Prado explica que o teatro será utilizado como “ferramenta de auxílio pedagógico” à rede municipal de ensino. Adultos e idosos, segundo ele, também poderão participar das oficinas, que serão desenvolvidas por voluntários da Associação Cultural e Produções Artísticas Band-Aid. Ao ser entrevistado pela Gazeta, Prado disse que estudará a possibilidade de incluir oficinas de artesanato no projeto.

Mendonça afirma que o prédio precisa de “adaptações internas” e de um guarda-corpo entre a calçada e a rodovia BR-459. Entretanto, o coordenador de Cultura garante que serão mantidas as características originais da antiga estação, inaugurada em 1894. O contrato entre a RFFSA e o Município estabelece que o estilo arquitetônico deve ser preservado e que “nenhuma benfeitoria poderá ser realizada no imóvel [...], sob pena de rescisão contratual”.

Foto: Jonas Costa

Livro tira artesãos cambuienses do anonimato

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Como é a vida de um artesão? O que motiva a escolha desse ofício? Quais são seus principais obstáculos? Eis algumas questões que a estudante de Jornalismo Cíntia Ferreira, 23, se propõe a responder no livro-reportagem ‘Artistas Ocultos: o ser humano por trás da obra’. O trabalho de conclusão de curso foi apresentado na última segunda-feira, 30, no auditório do Campus Fátima da Universidade do Vale do Sapucaí (Univás), em Pouso Alegre. Orientado pela professora Hellen Morais, o projeto foi aprovado pela banca examinadora.

De acordo com Cíntia, o livro-reportagem surgiu para dar voz a artesãos que vivem praticamente no anonimato em Cambuí. A futura jornalista selecionou nove histórias de pessoas simples que produzem peças artesanais por diferentes razões. Sem acesso a cursos e aos grandes meios de comunicação, os entrevistados surpreenderam a autora pelo talento na vida e na arte. “Esses artistas não desistem e têm muito amor pelo que fazem, mesmo sem receber nenhum incentivo. O dinheiro não é o único motivo para criar. Há também a necessidade de se realizar ou de resgatar uma atividade aprendida na infância”, revela.

Esse universo rico de histórias começou a ser descortinado por Cíntia numa pesquisa feita no Centro de Informações Turísticas (CIT) de Cambuí. A estudante de Jornalismo ficou impressionada com o número de artesãos residentes no município, superior a uma centena. Apesar da quantidade de artistas, a autora percebeu que faltam organização e reconhecimento ao segmento. Segundo um levantamento realizado por Cíntia, não há no Sul de Minas publicações destinadas exclusivamente a narrar vidas de artesãos. “Os jornais da região já veicularam pequenas matérias sobre a vida de alguns artesãos, mas todas priorizavam a beleza das obras. E as revistas existentes no mercado só ensinam como fazer artesanato”.

Os nove personagens de ‘Artistas Ocultos’ são Adolfo Simões de Oliveira Neto, 22; Aloísio Alex, 43; Antônio de Oliveira Lima, 80; Benedita Maria Manoel, 62; Benedito César da Silva, 60; Isolino da Silva, 33; Lairton Dias de Souza, 55; Newton Nogueira Gomes, 49; e Terezinha Maria da Rosa, 69. A autora afirma que existem muitos outros artesãos que merecem ter suas trajetórias relatadas em livro. Cíntia busca apoio para publicar sua primeira obra, mas afirma enfrentar dificuldades para concretizar este desejo.

Foto: Iara Siqueira

Presidente eleito da Câmara traça agenda para 2010

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Eleito para presidir a Câmara Municipal santa-ritense em 2010, o vereador João Paulo Sampaio (PDT) comentou em entrevista à Gazeta os temas que deverão estar no topo da agenda política do próximo ano. O parlamentar de 38 anos nasceu em Barra Mansa (RJ), é professor de história e conquistou seu primeiro mandato em 2008 com votação recorde. Atual vice-presidente da Câmara, Sampaio sucederá Magno Magalhães Pinto (PT). O petista passará a secretariar a mesa diretora, e a vice-presidência caberá ao atual secretário, Vagner Fernandes Mendes (PR).

Dos três candidatos, apenas Mendes não foi escolhido por unanimidade – teve apoio de sete dos nove vereadores, em votação secreta. O presidente eleito avalia que a apresentação de chapa única demonstra a unidade da casa legislativa. Segundo Sampaio, os membros da mesa foram mantidos porque conquistaram a aceitação da maioria durante os trabalhos deste ano. A relação entre Câmara e Prefeitura, diz ele, deve continuar harmônica sem que o legislativo abra mão de sua autonomia e de seu poder fiscalizador.

Sampaio espera que o Plano Diretor Participativo esteja entre as prioridades dos vereadores e do prefeito Paulo Cândido da Silva (PV) em 2010. “Minha preocupação maior é com o Plano Diretor. A Câmara vai abrir as portas para discuti-lo com a sociedade. O plano é obrigação do prefeito e missão de todos”, enfatiza.

A dívida da Prefeitura com a empresa BPS Terraplenagem, superior a R$ 20 milhões, também preocupa João Paulo Sampaio. O novo presidente ressalta que os primeiros pagamentos à construtora terão de ser incluídos na lei orçamentária de 2011, que será votada no próximo ano. “Temos que achar alternativas dentro do orçamento de 2011 para deixar uma fatia prevendo a pior das hipóteses: ter que pagar as prestações, conforme já foi determinado judicialmente”.

Para Sampaio, os trabalhos legislativos de 2010 deverão ser influenciados pela campanha eleitoral, principalmente pela disputa para deputado estadual e federal. O parlamentar pedetista observa que a cidade pode ser beneficiada por investimentos pré-eleitorais. “Sabemos que em ano político acontecem obras. Seria hipocrisia dizer o contrário”, reconhece.

Foto: Cíntia Ferreira

Prefeito retira projeto do Plano Diretor

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O prefeito de Santa Rita do Sapucaí, Paulo Cândido da Silva (PV), solicitou à Câmara Municipal na última segunda-feira, 30, a retirada do projeto de lei complementar que criaria o Plano Diretor Participativo (PDP). Silva atendeu a uma solicitação do vereador João Paulo Sampaio (PDT) endossada pelos outros nove parlamentares santa-ritenses na sessão ordinária de 24 de novembro.

Sampaio alega que o documento protocolado na Câmara em agosto desagrada comerciantes, produtores rurais e proprietários de imobiliárias. “Alguns itens engessariam o desenvolvimento econômico”, opina o vereador, citando como exemplos a ideia de conter a expansão urbana além dos limites da BR-459 e a sugestão de tombamento das casas da rua Silvestre Ferraz (rua da Ponte).

O parlamentar se diz favorável à aprovação de “um plano diretor que atenda aos reais interesses dos cidadãos”. Por isso, defende que o conteúdo do PDP seja novamente debatido pela sociedade santa-ritense. Sampaio conta que não participou das discussões promovidas pela Prefeitura de 2006 a 2007 porque teria havido “pouca sensibilização” sobre o tema na época.

O vereador destaca que a gestão democrática é uma das diretrizes do Plano Diretor. Ele revela que a Câmara planejava dezenas de emendas ao projeto, mas optou por ouvir a população antes de votar possíveis alterações. “Se o Plano Diretor for feito de cima para baixo, quebra a questão da gestão democrática. Não é um plano de um governo ou de um prefeito; é um plano de uma cidade que planeja o seu desenvolvimento”.

O prefeito de Santa Rita foi procurado por telefone para justificar o recuo, mas sua assessoria de imprensa informou que os esclarecimentos deverão ser prestados na próxima semana.

Novos dirigentes metalúrgicos tomam posse

[Nota de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Foram empossados na noite de 28 de novembro os 17 novos dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Santa Rita do Sapucaí, Conceição dos Ouros e Cachoeira de Minas (Sindmetsrs). A nova diretoria havia sido eleita em junho, com 93% dos votos, para o quadriênio 2010/2014. A presidente da organização sindical, Maria Rosângela Lopes, foi reconduzida para o cargo.

A cerimônia foi acompanhada por aproximadamente 200 pessoas, entre as quais representantes de sindicatos de São Paulo, Ipatinga, Três Corações e Sete Lagoas. Os integrantes da nova diretoria receberam seus diplomas das mãos de Delson José de Oliveira, presidente da Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos de Minas Gerais.

Em discursos, Oliveira e o gerente regional do Trabalho e Emprego de Pouso Alegre, Flávio Lúcio Andrade, destacaram a importância do Sindmetsrs para o setor sindical no Sul de Minas.

Foto: Silvia Rafael

Padre José recebe homenagem do Judiciário

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O monsenhor José Carneiro Pinto, principal líder da Igreja Católica em Santa Rita do Sapucaí, foi homenageado pelo Poder Judiciário na última quinta-feira, 3. ‘Padre José’ recebeu a Medalha Desembargador Hélio Costa em solenidade realizada no Santuário de Santa Rita de Cássia. A comenda foi entregue ao sacerdote em reconhecimento à sua colaboração com o trabalho da Justiça em Minas Gerais.

José Carneiro Pinto nasceu em 1921 na cidade de Itajubá, mas sua família transferiu-se para Santa Rita quando ele ainda não havia completado dois anos. Ordenado em 1946 na Catedral Metropolitana de Pouso Alegre, atuou em vários municípios sul-mineiros. Foi vigário cooperador de Paraisópolis e vigário ecônomo em Conceição dos Ouros e Consolação. Padre José dirigiu a Paróquia de Santa Rita de Cássia por 40 anos (1957 a 1997), mandato mais longo da história da instituição.

Hoje pároco emérito de Santa Rita, o monsenhor não se dedicou apenas ao trabalho pastoral na cidade. No final da década de 1950, colaborou com Sinhá Moreira na fundação da primeira escola latina de ensino técnico em eletrônica. Como pároco, criou a Fundação Educandário Santarritense e coordenou a construção de dezenas de capelas e igrejas. Segundo a Paróquia de Santa Rita, Padre José celebrou, até 1996, mais de 7,2 mil casamentos e 30,5 mil batizados.

O sacerdote de 88 anos é o sétimo homenageado pelo Poder Judiciário na comarca de Santa Rita desde 1996. Já receberam a Medalha Desembargador Hélio Costa o servidor público Aídio Ribeiro, a empresária Isabela Carneiro Seda, o médico Jorge Toledo Rennó, os advogados José Junqueira e Luiz Rennó Mendes e a professora Rachel Guido Rocha Lemos. Os agraciados são escolhidos por uma comissão formada pelo juiz diretor do Foro da Comarca, promotor de Justiça, prefeito, presidente da Câmara Municipal e presidente da subseção da OAB. A honraria é entregue a cada dois anos e recebeu o nome de Hélio Costa por conta da atuação deste desembargador em tribunais mineiros.

Renovar para melhor

Há alguns anos, em entrevista a uma pequena emissora de TV, o então deputado federal Ricardo Izar (1938-2008) comentou que, a cada eleição legislativa, percebia que o Congresso Nacional se renovava “para pior”. Bem ou mal, Izar cumpriu seis mandatos no parlamento brasileiro e, portanto, sabia o que estava dizendo.

Não se inventou a corrupção da noite para o dia, ou numa década, ou num governo. Considerando os últimos 24 anos de presidentes civis, é inevitável mencionar as concessões de rádio e TV distribuídas por José Sarney, as traficâncias do tesoureiro de campanha de Fernando Collor, as privatizações suspeitíssimas de Fernando Henrique e, claro, a grave denúncia de compra de apoio pelo governo Lula da Silva. Na maioria dos casos, a lama respinga no parlamento ou brota dos gabinetes do Poder Legislativo.

Na semana passada, parte do esgoto político de Brasília chegou à superfície. Súbito, o governador do Distrito Federal, o itajubense José Roberto Arruda, começou a ser arrastado por uma enxurrada de denúncias. A triste novidade (para Arruda) é o registro em vídeo da distribuição de dinheiro de origem desconhecida para deputados distritais e assessores palacianos. O governador tem direito e dever de se defender, mas não será fácil comprovar que pacotes de cédulas escondidas até em roupas íntimas servissem para comprar panetones.

O affair Arruda exemplifica a fórmula básica da corrupção na política: Executivo corruptor somado a Legislativo corruptível resulta em pilhagem sem limites. Como se não bastasse este escândalo de fazer inveja a Edir Macedo, a imprensa divulga uma lista de sete deputados que teriam empregado dinheiro público na campanha eleitoral de 2008 – entre eles, Fernando Gabeira.

Num ambiente de “Somos todos iguais nesta noite”, ganham força os movimentos pelo voto nulo. Uma das mensagens mais divulgadas é “Não reeleja ninguém”. Impossível. O voto nulo torna nula a capacidade de influenciar o resultado, ou seja, mantém o status quo. Só valem os votos válidos, como o próprio nome indica. Quem vota num candidato aparentemente honesto corre o risco de eleger um notório gângster do mesmo partido, mas tem, ao mesmo tempo, a chance de renovar para melhor.

27 de nov de 2009

Plano Diretor provoca divergências sobre desenvolvimento urbano

[Reportagem de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Desenvolvimento urbano é o tema central do Plano Diretor Participativo (PDP) e motivo de divergências em Santa Rita do Sapucaí. O projeto de lei complementar que institui o PDP da cidade aguarda votação na Câmara Municipal. Desde que foi enviado aos vereadores, em agosto, o documento tem sido discutido por grupos políticos e empresariais. A Gazeta do Vale entrevistou, nas últimas semanas, cinco representantes de diferentes setores: o secretário municipal de Obras, Marcos Antônio Salvador de Barros; os proprietários de imobiliárias Alex Ander Menezes Capistrano de Alckmin e Giovanni Perrotta; o engenheiro e membro do Núcleo Gestor do PDP João Paulo de Oliveira Neto; e a arquiteta e urbanista Daniela Togawa.

Entre os pontos mais polêmicos do Plano Diretor estão alguns parâmetros urbanísticos, como os valores mínimos para tamanho de lote (360m2), largura de rua (14m) e largura de calçada (3m). Oliveira defende vias públicas e calçadas mais largas para que a acessibilidade seja assegurada aos cidadãos. Togawa afirma que passeios com menos de 2,4m não oferecem conforto aos pedestres, que dividem espaço com postes, árvores e lixeiras. Capistrano diz que a “largura tradicional” de ruas e calçadas deve ser mantida e que lotes de 360m2 não serão vendidos por menos de R$ 100 mil. Perrotta também prevê elevação nos preços de imóveis com as novas dimensões.

O Plano Diretor prevê instrumentos para coibir a especulação imobiliária e ocupar os vazios urbanos. Um deles é o IPTU progressivo no tempo (aumento da alíquota do imposto por cinco anos ou até que o proprietário realize parcelamento, edificação ou utilização compulsória). A medida está prevista no Estatuto da Cidade (lei federal 10.257/2001). Barros e Oliveira concordam com a adoção do mecanismo e salientam que a população tem custeado a limpeza e a iluminação de áreas não-utilizadas à espera de valorização. Capistrano e Perrotta defendem a “pulverização da oferta de loteamentos”, o que segundo eles derrubaria os preços de imóveis. Já Togawa sugere uma alternativa ao IPTU progressivo, também prevista no Estatuto da Cidade: consórcios imobiliários entre poder público e proprietários.

Outro instrumento do Estatuto incluído no PDP é o direito de preempção, que confere ao Município a preferência na aquisição de imóveis para execução de projetos habitacionais, criação de espaços de lazer ou outras ações de interesse público. Os dois proprietários de imobiliárias ouvidos pela Gazeta classificam a preempção como “autoritária” e “comunista”, pois consideram que esta proposta coloca em risco a livre iniciativa. Oliveira diz que a opinião dos empresários é “completamente retrógrada”. Ele e o secretário de Obras defendem a tese de que o direito de preempção foi criado para que a propriedade cumpra sua função social. O projeto do Plano Diretor estabelece que as áreas de interesse do Município serão delimitadas numa lei específica.

Se o conteúdo atual do PDP for transformado em lei, os condomínios residenciais fechados serão proibidos em Santa Rita. Alex Capistrano discorda, alegando que esse tipo de empreendimento garante segurança aos moradores e vantagens à Prefeitura. “Tudo é por conta do proprietário, até o recolhimento de lixo. O único trabalho da Prefeitura é recolher IPTU”, diz o empresário. João Paulo de Oliveira tem opinião oposta: “Os condomínios favorecem uma parcela minoritária da população, e o poder público é chamado a investir o dinheiro de todos na infraestrutura adequada”. Daniela Togawa alerta que os condomínios fechados geram discriminação social por estarem fisicamente isolados dos bairros.

O crescimento vertical da cidade também divide opiniões. Isso porque o projeto de lei do Plano Diretor só permite a construção de prédios com mais de quatro pavimentos (no máximo 12) numa área situada entre o Centro e o bairro Maristela. Perrotta afirma que a regra deveria ser flexível, já que o impacto ambiental de um loteamento seria “muito maior do que o da verticalização”. Para Oliveira, “flexibilizar é permitir que a cidade continue crescendo de uma maneira aleatória”. Togawa diz que um “Centro vertical” provocaria supervalorização nesta área. O secretário de Obras, por sua vez, reconhece que a Zona de Expansão Vertical poderia ser ampliada, mas ressalta que a construção de prédios altos precisa ser regulamentada no município.

O projeto do Plano Diretor cita, entre as diretrizes da política fundiária municipal, a contenção do crescimento da cidade além dos limites da rodovia BR-459. Barros aprova a ideia, citando os bairros Pedreira e São José como exemplos de isolamento e risco de acidentes. A mesma preocupação é manifestada por Oliveira, que alerta para a necessidade de se criar escolas e postos de saúde caso surjam novos bairros do outro lado da pista. Os empresários Perrotta e Capistrano assumem posição contrária: os dois chamam a proposta de “absurda” e entendem que a expansão urbana não deve ser limitada por lei.

Saiba mais - O projeto de lei do Plano Diretor e seus anexos estão disponíveis no site da Câmara Municipal. O endereço é www.camarasrs.mg.gov.br/Opine.asp

Imagem: reprodução

Ex-prefeito é condenado por superfaturamento de show

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O ex-prefeito santa-ritense Ronaldo de Azevedo Carvalho (PSDB) foi condenado em segunda instância, no dia 20 de novembro, pelo suposto superfaturamento de um show da dupla sertaneja Milionário & José Rico. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais manteve a decisão do juiz José Sérgio Palmieri, titular da Segunda Vara da Comarca de Santa Rita do Sapucaí. O TJMG decidiu que Carvalho deve ficar inelegível e devolver R$ 26,7 mil aos cofres públicos.

A apresentação da dupla aconteceu em maio de 2006, durante a segunda gestão do tucano (2005-2008). De acordo com o Ministério Público, que propôs a ação, a Prefeitura teria gasto R$ 59,7 mil na contratação, alimentação e hospedagem da banda. O MP apurou que as apresentações de Milionário & José Rico custavam, na época, aproximadamente R$ 33 mil – valor orçado em Pouso Alegre e Congonhal, por exemplo.

O político declarou à reportagem que recorrerá da decisão do tribunal. Carvalho acredita que o processo terá “muitos desdobramentos”, já que o preço de uma produção artística é, segundo ele, uma “questão subjetiva”. “[O valor] depende da data contratada, do número de profissionais participantes, da distância do local de moradia do artista. Não é o mesmo de falar em um produto tabelado, como um veículo”, argumenta.

No início de outubro, o TJMG absolveu o tucano em outro processo, referente ao plano corporativo de telefonia móvel contratado em sua segunda passagem pela Prefeitura. Ao contrário do Ministério Público e do juiz Palmieri, os desembargadores do tribunal entenderam que o então prefeito não agiu de má-fé, bem como o vereador Clarismon Inácio (PSDB) e o ex-vereador Renato Antônio de Martha (PMDB). Carvalho alega que o uso de celulares reduziu os gastos com ligações telefônicas de R$ 15 mil para R$ 7 mil mensais.

Ronaldo Carvalho considera irônico o fato de ser processado por “alguns reais” no momento em que a Prefeitura é condenada a pagar mais de R$ 20 milhões à construtora itajubense BPS Terraplenagem – dívida classificada por ele como “fruto da omissão irresponsável de uma administração municipal”. O ex-prefeito afirma ser necessário comparar seu último governo com o atual. Segundo ele, a gestão tucana aplicou R$ 12 milhões em imóveis, adquiriu 20 veículos novos e atraiu 30 indústrias para a cidade, ao passo que a administração de Paulo Cândido da Silva (PV) “afugenta investimentos”.

Para Carvalho, a imprensa santa-ritense tem atuado com equilíbrio quando cobre assuntos relativos à sua carreira política. “Existe um princípio elementar do bom jornalismo: ouvir as partes interessadas, procurar as diversas versões. Entendo que a nossa imprensa, rádios e jornais, tem procurado cumprir este princípio”, reconhece.

Livro sobre Dona Chiquita deve ser publicado em 2010

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Um trabalho iniciado há mais de duas décadas e concluído em 1999 deverá ser publicado no primeiro semestre de 2010. Intitulado ‘Consciência Iluminada’, o livro da advogada e professora Ilma de Faria Dutra narra a infância e a juventude da líder espírita Francisca Celira da Silva Dias (1914-1993). ‘Dona Chiquita’, como era chamada, foi a responsável pela criação do Centro Espírita Amor a Verdade Mãe Maria, em Santa Rita do Sapucaí.

Quando decidiu escrever a obra, a autora se propôs a desvendar os anos menos conhecidos da vida de Dona Chiquita. Para tanto, entrevistou mais de 20 pessoas e vasculhou documentos em cartórios da região. Ilma Faria afirma que sempre planejou lançar o livro após 15 anos da morte da biografada. “Quis esperar partindo do princípio da justiça da Terra: não se deve fazer nada na emoção”, justifica.

A biógrafa conta que a família de Chiquita percebeu que ela possuía poderes paranormais ainda na infância, morando na cidade de Careaçu. Aos três anos, a menina teria ouvido os pensamentos da mãe pela primeira vez. Dona Laura pensava nas duas filhas que havia perdido quando Chiquita a abraçou e disse: “Mãe, eu estou aqui! Eu também sirvo!”

O livro conta outra passagem famosa em Careaçu. O padre Carmelo D’Angelo, padrinho de Chiquita, ganhou um desafeto ao impedir uma moça de participar da procissão de Nossa Senhora da Conceição com vestido de festa. Percebendo que o sacerdote seria baleado pelo pai da jovem, Chiquita, então com 12 anos, se postou à frente do padrinho. Segundo Ilma Faria, houve um tiro à queima-roupa, mas a cápsula teria desaparecido misteriosamente.

Francisca Celira nasceu em Varginha e faleceu em Santa Rita. Católica na infância, aderiu à doutrina espírita depois de casada. Foi na fase adulta que a líder espírita passou a ter notoriedade. Dizia-se que ela enxergava a parte interna do organismo humano a olho nu, além de ler auras. Médicos de várias regiões do Brasil a procuravam para se aconselhar ou até para checar seus próprios diagnósticos.

De acordo com a escritora, Chiquita decidiu fundar um centro espírita após ver um hanseniano se ajoelhar diante dela para implorar cura. Além do trabalho espiritual, Francisca auxiliava famílias pobres com alimentos, roupas e medicamentos que arrecadava. “Dona Chiquita foi uma figura notável em Santa Rita, no Sul de Minas e em partes até mais longínquas. Vinham de muito longe para se aconselhar com ela”, relata Ilma Faria.

Foto: acervo particular

Julgamento no escuro

Cesare Battisti não ocupa cargo político nem participa de reality show, mas é um dos nomes mais citados nos últimos meses pelos veículos de comunicação brasileiros. Ele é um escritor italiano que nos anos 70 pegou em armas para defender suas idéias revolucionárias. Condenado a prisão perpétua pela Justiça da Itália, é apontado como autor de quatro homicídios.

O grupo no qual Battisti militou chamava-se Proletários Armados pelo Comunismo (PAC). Coincidência ou não, essa mesma sigla designa o Programa de Aceleração do Crescimento, plano de investimentos em infraestrutura que tem como mentora a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), que participou da luta armada durante a ditadura militar. Curiosamente, a exposição de Battisti aumenta na medida em que se aproximam as eleições presidenciais de 2010, quando Dilma deve concorrer pelo PT.

O interesse de atingir Dilma indiretamente é apenas uma hipótese. Mas quais seriam os outros motivos para tamanha atenção sobre a trajetória de um homem outrora desconhecido no Brasil? Talvez seja pela atuação de políticos brasileiros e italianos, a favor ou contra a extradição do ativista. Na Itália, a classe política parece unida contra Battisti, do premiê direitista Silvio Berlusconi ao líder de centro-esquerda Massimo D’Alema. No Brasil, só uma parte da esquerda acredita em sua inocência.

O caso Battisti começou a repercutir internacionalmente em janeiro deste ano, mais precisamente no momento em que o ministro Tarso Genro (Justiça) concedeu refúgio político ao escritor. Ele havia sido detido no Brasil em 2007. É no Presídio da Papuda, em Brasília, que o escritor aguarda a decisão do presidente Lula que selará seu destino. Compete apenas ao mandatário aprovar ou rejeitar a extradição.

Não é fácil opinar sobre um processo tão polêmico. Muito menos decidir o futuro de uma vida humana cercada de dúvidas. Mesmo assim, figuras como Alexandre Garcia pedem quase diariamente que Battisti seja defenestrado. É por essas e outras que o jornalista Paulo Henrique Amorim alerta que a ‘grande mídia’ atua como partido político.

20 de nov de 2009

Atividades culturais lembram Dia da Consciência Negra

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro) começou a ser celebrado hoje em Santa Rita do Sapucaí. Uma série de atividades culturais foi programada como parte do Projeto Cultura Afro Santarritense, em parceria com a Associação José do Patrocínio, a Escola de Samba Mocidade Independente do Sapucaí e a Colônia Africana.

Uma missa promovida na noite de hoje no Santuário de Santa Rita de Cássia marcou a abertura dos eventos. Após a cerimônia religiosa, a praça central da cidade foi palco de apresentações da Lira Santa Rita e de grupos de samba, hip-hop e capoeira. A barraca de alimentação da Colônia Africana movimentou a noite e arrecadou fundos para a Creche Santa Rita.

As atividades terão continuidade amanhã, a partir das 13h, na sala de exposições temporárias do Museu Delfim Moreira. A instituição sediará uma mostra de fotografias, vídeos e pratos de origem africana. Três palestras serão ministradas durante a exposição. Jéssica Alcione Ribeiro Alves dos Santos apresentará o Projeto Cultura Afro Santarritense. ‘Cultura Negra’ será o tema da conferência de Ana Lúcia Marcelino da Costa. Já Rafael Aflísio discorrerá sobre culinária africana e candomblé.

A mostra homenageará o músico santa-ritense Adail Ribeiro (1935-2004), que foi regente da Lira Santa Rita. Serão expostas peças que pertenceram ao maestro, como seu clarinete preferido e duas faixas conquistadas na época em que jogou no Minas Gerais, time conhecido como ‘Cabeça de Vaca’. O Bloco dos Músicos e ritmistas da Escola de Samba Azul e Branco se apresentarão em homenagem a Adail. Haverá números de samba e capoeira, além de declamação de poesia pela estudante Jéssica Cristina.

O Projeto Cultura Afro Santarritense foi criado em agosto pela professora Jéssica Alcione. Ela estuda aspectos da cultura negra há dez anos e abordou o Dia da Consciência Negra em trabalho de conclusão do curso de Pedagogia. A principal meta do projeto é resgatar manifestações culturais dos negros santa-ritenses, como os bailes da Associação José do Patrocínio e a congada da Rua Nova.

Sons da Prodarte ecoam há 30 anos


[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Foi durante uma conversa com o violonista João Argolo, em 1979, que Terezinha de Jesus Carvalho Souza teve a ideia de criar um projeto de promoção humana por meio de atividades artísticas. Ela estudava no Conservatório Estadual de Música de Pouso Alegre e sentiu-se provocada ao ouvir João descrever uma iniciativa desenvolvida por seu irmão em terras distantes. “Por que não fazemos o mesmo em Santa Rita?”, dizia a jovem idealista a amigos ligados à música.

As palavras de Terezinha começaram a ganhar eco em sua própria família – o marido e músico José Maria à frente. O entusiasmo não demorou a contagiar as filhas do casal. Em pouco tempo, estava formado um grupo disposto a levar a ideia adiante. À primeira reunião compareceram Heliana Maria Miranda, Antônio Anézio Felipe, Janete Borges Chaves, Maria Alice Baracat e outros incentivadores da cultura. Coube ao juiz aposentado e escritor Cyro de Luna Dias elaborar o primeiro estatuto do Projeto de Desenvolvimento Através da Arte. Nascia a Prodarte.

A sigla foi mantida, mas questões burocráticas provocaram a substituição de ‘Projeto de Desenvolvimento’ por ‘Associação Pró-Desenvolvimento’. A nova denominação possibilitou a inclusão da entidade entre os Pontos de Cultura do governo federal, a partir de 2006. No mesmo ano, um prédio alugado pela Prefeitura converteu-se na primeira sede da Prodarte. O imóvel residencial sofreu algumas adaptações e continua abrigando os instrumentos e sonhos da associação.

Cinco professores e 40 alunos lançam seus sons na rua do Queima de segunda a sexta-feira. São violinos, violas, violoncelos, saxofones, flautas e vozes da Orquestra Experimental da Prodarte. Entre os mestres está o saxofonista Antônio Anézio Felipe, o popular Tonico, fundador que à casa retornou em 2001. “Estou aqui porque este é um trabalho muito sério. Noto progresso nas pessoas com quem trabalho”, justifica o experiente músico.

A estudante Mônica Cássia Bernardes de Souza faz aulas de violino há apenas nove meses, mas já sente que o contato com a música erudita alterou sua relação com os sons do mundo. Já a professora Rita Helena de Souza Magalhães, assessora pedagógica da associação, percebe que a música une pessoas e transforma vidas.

Atenta a estes depoimentos, a idealizadora Terezinha Souza resumiu três décadas de trabalho voluntário com um sorriso discreto e uma curta declaração. “Valeu a pena pelo fato de termos chegado até aqui. Apesar das dificuldades, o saldo é positivo”, sentenciou a professora de cabelos brancos que fez de seu antigo sonho uma nova realidade para muitos santa-ritenses.

Foto: Jonas Costa

Caso Phihong avança mais uma etapa

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O processo de transferência dos bens da antiga Phihong PWM Brasil para a Linear Equipamentos Eletrônicos cumpriu mais uma exigência burocrática na última segunda-feira, 16. O Cartório de Registro de Imóveis de Santa Rita do Sapucaí emitiu uma certidão que oficializa a arrematação do prédio da Phihong por seus ex-funcionários. A conclusão do caso depende agora de outra certidão do cartório, desta vez transferindo o imóvel para a Linear, que o adquiriu juntamente com suas máquinas em maio.

Multinacional do setor eletroeletrônico, a Phihong desativou sua unidade santa-ritense no ano passado, demitindo mais de 1.400 operários sem pagar as devidas verbas rescisórias. Os empregados dispensados ingressaram com ações na Justiça do Trabalho, que acabou penhorando e leiloando o patrimônio do grupo empresarial. Como o leilão não teve lances, os próprios ex-funcionários usaram seus créditos trabalhistas para assumir os bens a partir de dezembro de 2008.

Para se tornar proprietária de fato, a diretoria da Linear tem auxiliado os representantes dos ex-funcionários da Phihong. No final de outubro, os advogados dos operários e dos futuros donos viajaram a Belo Horizonte para uma audiência no Tribunal Regional do Trabalho. A soma de esforços resultou na expedição das cartas de arrematação do prédio e dos equipamentos. Um dos advogados dos trabalhadores, Ronaldo Kersul, diz que o principal entrave foi resolvido com a entrega dessas cartas.

O presidente da Linear, José de Souza Lima, recebeu a certidão do cartório na terça-feira, 17, e no mesmo dia encaminhou o documento à Caixa Econômica Federal (CEF), que financiará parte do negócio. A documentação está sendo analisada pelo departamento jurídico do banco e, após aprovada, retornará ao cartório para que os bens sejam registrados em nome da Linear. O último passo antes do pagamento será uma nova análise pelo setor jurídico da CEF.

O presidente da comissão de advogados dos trabalhadores, Fernando Luiz Andrade, acredita que a liberação do dinheiro será rápida, mas não se arrisca a citar data-limite para os depósitos. “Estipular um prazo exato para liberação do dinheiro no momento não é possível, pois não depende de nós. No entanto, estamos mantendo contato direto com a CEF, procurando acompanhar todo procedimento de perto, bem como fazendo tudo que é possível para apressar o desenrolar da presente situação”, assegura Andrade.

O gestor da comissão de ex-funcionários, Mozart Zaghi, considera possível que os pagamentos sejam efetuados até o final deste ano. Zaghi diz que, durante a entrega da certidão ao presidente da Linear, todos os participantes chegaram a essa conclusão. “Não temos data exata, mas foi unânime o sentimento de que passaremos um Natal tranquilo, com dinheiro no bolso”. O advogado Ronaldo Kersul concorda que o processo está em sua “fase final”, mas evita sugerir um prazo.

Para Andrade e Kersul, é injusto atribuir aos advogados a demora no pagamento. “Os trabalhadores trabalharam e não receberam. Os advogados continuam trabalhando e ainda não receberam nada. Os advogados têm o mesmo interesse e todos vão receber na mesma data”, salienta Kersul. Andrade assegura que “as pessoas envovidas nessa operação estão trabalhando incansavelmente para que esta questão seja solucionada com a maior brevidade”.

República renovada

Convencionou-se chamar de Nova República o período da história brasileira inaugurado com a eleição do civil Tancredo Neves, em 1985, depois de 21 anos de presidentes militares. Porém, a nova fase nasceu com ares de velha. Eleito aos 74 anos, Tancredo morreu sem assumir o cargo, que acabou sendo exercido pelo vice José Sarney, antigo apoiador da ditadura. Os dois velhos políticos profissionais foram escolhidos por colegas de ofício, numa votação restrita aos membros do Congresso Nacional.

A República brasileira só voltou a ser verdadeiramente pública em 1989. Não por acaso, a primeira eleição direta para a presidência desde 1960 ocorreu no dia 15 de novembro – data em que a República fora proclamada, exatamente 100 anos antes. O povo recuperou o direito de escolher seu líder e teve 22 opções na cédula. Pela primeira vez, estavam na disputa um operário, uma mulher e um negro. Os partidos comunistas não eram mais clandestinos; os exilados haviam regressado à sua pátria.

Todas as grandes agremiações partidárias foram representadas no pleito. O PMDB ainda tinha Ulysses Guimarães. O antigo PFL era a legenda de Aureliano Chaves. Pelo PDT lançou-se Leonel Brizola. O candidato do PSDB era Mário Covas. Lula da Silva era o nome oferecido pelo PT. Já o extinto PDS tinha Paulo Maluf como líder. Também concorreram Roberto Freire (PCB), Afif Domingos (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Fernando Gabeira (PV)... e Fernando Collor de Melo (PRN).

Collor venceu por obra e graça de uma propaganda tão eficiente quanto inescrupulosa. Seduziu o país com sua cara lavada e com a promessa de lavar mais branco. Teve apoio da Rede Globo e de quase todo o resto da mídia. Fugiu dos debates do primeiro turno, mas soube usar a TV a seu favor.

O personagem ridículo apelidado de caçador de marajás nem chegou a terminar seu mandato. Foi cassado, morto e sepultado, mas ressuscitou ao terceiro pleito, em 2006. Collor e o Brasil mudaram nos últimos 20 anos. O ex-presidente hoje apóia o ex-desafeto Lula. Muitos partidos mudaram de sigla, de lado e de dono. As fronteiras entre esquerda e direita estão menos nítidas. A forma de eleger o presidente não foi alterada – e isso garante que a República seja sempre renovada.

13 de nov de 2009

Com parceiros renomados, Insel prepara novos projetos


[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O Instituto Santarritense de Esporte e Lazer (Insel) firmou importantes parcerias nos últimos meses e pretende expandir suas atividades. A organização não-governamental prepara novos projetos para ampliar o número de pessoas atendidas. O cadastro do Insel é composto por 400 nomes, mas, por falta de espaço, somente 93 atletas de quatro a 18 anos participam dos trabalhos da entidade. Os jovens podem praticar triathlon (esporte que inclui natação, atletismo e ciclismo) ou apenas natação.

Os exercícios na piscina passarão por modificações até o final deste ano. Isso ocorrerá porque o instituto está credenciado desde agosto para aplicar a Metodologia Gustavo Borges (MGB). O método foi sistematizado pelo professor William Urizzi de Lima a partir da experiência do renomado nadador. O Insel é a primeira ONG a receber o credenciamento, antes restrito a academias, clubes e colégios.

Segundo a presidente do instituto, Tatiane Bono Costa Pina, o manual do MGB descreve detalhes que podem ser decisivos no desempenho dos nadadores. A parceria com Gustavo Borges prevê material pedagógico, boletins mensais com dicas aos credenciados, calendário de objetivos semanais, cursos de capacitação para professores e visitas periódicas da assessora Mariella Bosquirolli. “Esse método muda a postura do aluno, que não irá só fazer aulas de natação. Ele vai ter objetivos”, salienta Pina.

Outra parceria beneficiará a equipe de triathlon do Insel, que terá San Palma como assessor técnico. Palma é treinador de Carla Moreno (heptacampeã do Troféu Brasil de Triathlon) e planeja treinar atletas santa-ritenses para os Jogos Olímpicos de 2016, a serem realizados no Rio de Janeiro. O técnico procurou a diretoria do instituto no final de outubro, após acompanhar o desempenho da equipe de Santa Rita do Sapucaí nas oito etapas do Campeonato Paulista de Aquathlon. Uma das triatletas do Insel, Aline Tenório de Faria, ficou em primeiro lugar na classificação geral da competição.

Projetos – As atividades do Insel devem ser transferidas para um novo local ainda neste ano. A ONG decidiu alugar o prédio em que funcionaram as academias Aquanauta e Life, no bairro Pôr-do-Sol. O espaço está sendo reformado. Será reaberta uma piscina aquecida de 12,5m de comprimento por 6m de largura, com capacidade para receber 493 pessoas por semana. Hoje os treinos oferecidos pela entidade são realizados nos campi da Escola Técnica de Eletrônica (ETE) e do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel).

Além das duas instituições de ensino, apenas cinco empresas santa-ritenses patrocinam o Insel. Por isso, a ONG lança neste mês o projeto ‘Adote um Aluno’, que incentiva o apadrinhamento de atletas por pessoas físicas. Cada padrinho ficará responsável pelo pagamento das mensalidades de um jovem de baixa renda. As taxas sugeridas são de R$ 20 e R$ 40, variando de acordo com a renda familiar, mas cada atleta contribui com a quantia que pode. As contribuições são empregadas na manutenção do Insel.

Os demais projetos da ONG estão relacionados no site www.insel.org.br.

Foto: divulgação

Organizadores do ‘Natal Criança Feliz’ buscam patrocinadores


[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O Natal de 2005 se aproximava quando o microempresário Fábio de Souza Amarins decidiu criar um evento para distribuição de presentes a crianças pobres de Santa Rita do Sapucaí. Recordando os anos difíceis de sua infância, Amarins percebeu que a história se repetia em muitos lares de seu bairro. Foi assim que surgiu o projeto Natal Criança Feliz, que em dezembro deste ano chega à sua quarta edição.

No primeiro ano de evento, Amarins e alguns amigos entregaram pouco mais de 300 brinquedos para crianças dos bairros da Nova Cidade, muitas delas presenteadas pela primeira vez no Natal. As doações – depositadas em caixas de papelão nas empresas do Vale da Eletrônica – cresceram cerca de uma centena por ano, de 2006 a 2008. Em 2007, por falta de apoio, o evento não aconteceu. Para atingir a meta de 600 brinquedos neste ano, os organizadores têm buscado patrocinadores.

Fábio Amarins diz que a maior despesa é gerada pelo aluguel de equipamentos recreativos, como cama elástica, balão pula-pula e piscina de bolinhas. Outra necessidade é a compra de refrigerantes, algodão doce e pipoca. Até o momento, o criador do Natal Criança Feliz é apoiado apenas pelo co-organizador Leandro Lopes e por três empresas santa-ritenses.

A edição de 2009 terá dois dias de atividades, como ocorreu no ano passado. Em 19 de dezembro, a partir das 10h, serão distribuídos presentes na fazenda de Fernando Avelar, no bairro Balaio. No dia 20, a festa terá continuidade no Ginásio Poliesportivo Municipal Jacques Bressler, na Nova Cidade. Pela manhã, haverá jogos festivos de futsal, handebol e basquete. À tarde, serão promovidos shows de grupos de hip-hop de Campinas e do bairro paulistano do Brás. A entrega de presentes terá início às 17h e deve ser encerrada por volta das 19h30.

A distribuição de presentes obedecerá a um critério a partir deste ano: as crianças que enviarem cartas à organização do evento terão prioridade. Amarins assegura, porém, que os brinquedos serão escolhidos aleatoriamente – os principais são bonecas, carrinhos e bolas de borracha. As cartas devem ser entregues até 15 de dezembro no Ginásio Jacques Bressler, das 17h às 22h; ou na lan house Ponto de Encontro (rua das Violetas, 69, bairro Baracat), em horário comercial.

Foto: acervo particular

Há muros entre nós

Poucas cenas do século XX foram tão simbólicas como a queda do Muro de Berlim, ocorrida há exatos 20 anos. Milhares de fotografias e vídeos registraram a rebelião popular que levou ao chão um obstáculo físico entre os blocos capitalista e socialista. Uma das imagens mais exibidas na época mostra jovens empoleirados no muro tendo ao fundo o majestoso Portão de Brandemburgo. Sobre o arco do triunfo alemão tremulava uma só bandeira, sinalizando que o vento soprava a favor da reunificação do país.

Para os capitalistas, o emblemático episódio marcou o triunfo da economia de mercado sobre o socialismo estatal. De fato, a queda do muro acelerou a implosão da União Soviética, detonada pelo russo Mikhail Gorbachev com o apoio dos líderes Ronald Reagan (EUA), Margareth Teacher (Reino Unido), Helmut Kohl (Alemanha Ocidental), Lech Walesa (Polônia) e João Paulo II (Vaticano). Para os alemães do leste e do oeste, o maior triunfo foi o da liberdade de atravessar a fronteira para abraçar os familiares ou simplesmente ter acesso a bens de consumo.

A inacreditável barreira de 120 quilômetros de extensão foi erguida numa só noite de 1961 e ficou em pé por 28 anos. Muros semelhantes são inimagináveis duas décadas depois. Mas ainda existem, infelizmente. Um deles começou a ser construído pelo governo norte-americano para conter a entrada de mexicanos no ‘país da liberdade’. Na Europa, o Chipre tem sua capital, Nicósia, rasgada por um paredão de concreto que divide a zona turca da grega. Israel usa uma muralha de 8 metros de altura para anexar territórios e espremer os inimigos palestinos.

Há vários outros exemplos de obras de alvenaria empreendidas para separar nações, regiões, etnias ou grupos religiosos. Contudo, os principais muros a derrubar no século XXI não são visíveis nem palpáveis. Não podem ser medidos em metros nem se aprisionam em pontos geográficos. Marretas ou picaretas não são capazes de destruir as desigualdades sociais, o racismo, a homofobia e o machismo. No Brasil, por exemplo, continuam intransponíveis os obstáculos para se erradicar a miséria e o analfabetismo. Bipolar ou não, o mundo é o mesmo para os excluídos de qualquer continente.

6 de nov de 2009

Ministro aprova passarela para Santa Rita


[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O ministro dos Transportes, senador Alfredo Nascimento (PR-AM), comunicou ao deputado Bilac Pinto (PR-MG), na semana passada, que o governo federal construirá uma passarela para pedestres em Santa Rita do Sapucaí. Nascimento determinou também que seja verificada a legalidade da construção do acesso ao distrito industrial do município, nas proximidades da usina da Cooperativa Regional Agropecuária (CooperRita).

A passarela é reivindicada pelos moradores do bairro Pedreira desde a duplicação da rodovia federal Juscelino Kubitschek de Oliveira (BR-459). A comunidade de pouco mais de 50 casas fica na entrada de Santa Rita, entre dois retornos, praticamente isolada pela mureta de concreto que divide a estrada. Quem mora no bairro e precisa atravessar a pista a pé, numa curva, corre perigo todos os dias.

A necessidade da passarela foi exposta pelos vereadores santa-ritenses durante reuniões com os deputados Bilac Pinto e Dalmo Ribeiro Silva (PSDB), de março a abril deste ano. Em seguida, uma comissão da Câmara Municipal levou a proposta ao superintendente regional do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit), Sebastião Donizete de Souza. No início de outubro, a Gazeta do Vale procurou o Dnit e assessores dos dois parlamentares, mas a obra ainda não havia sido confirmada pelo Ministério dos Transportes.

A reportagem voltou a telefonar para o escritório do Dnit em Pouso Alegre na última semana. O analista administrativo do órgão, Wagner Lopes Alves, não soube informar quando a obra será iniciada, mas disse que a inclusão da BR-459 no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) facilita a liberação de recursos para a passarela. “Vai ser uma questão mais burocrática do que orçamentária”, resumiu Alves, ao explicar que a execução da obra é precedida de uma licitação para escolha da empreiteira.

Foto: arquivo do Ministério dos Transportes

Cineasta sul-mineiro é convidado a participar de mostra na França

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O cineasta sul-mineiro Flávio Chiarini Pereira foi convidado a exibir seu curta-metragem ‘Fance’ na 22ª edição dos Encontros de Cinema da América Latina de Toulouse, no sul da França. O convite foi feito em 17 de outubro, após a exibição do segundo filme de Chiarini no festival CineBH, na capital mineira. A mostra de Toulouse deve acontecer em março de 2010 e já homenageou, entre outros brasileiros, o ator Lázaro Ramos (2007) e o diretor José Mojica Marins (2002). Dezessete países foram representados na última edição.

O título ‘Fance’ foi escolhido por sua relação com a palavra ‘infância’ – em latim, ‘in’ significa ‘não’, e ‘fance’ é sinônimo de ‘fala’. Por isso, o objetivo do documentário experimental de Chiarini é dar voz a crianças. Gravado em 2007, o curta havia sido exibido em festivais de cinema de São Paulo (Livraria Cultura), Porto Alegre (CineEsquemaNovo), Goiânia (MIAU) e Itajaí (Catarina Festival).

Antes do sucesso de ‘Fance’, Chiarini havia criado e dirigido o documentário ‘A História de Delinho’, que narra a vida de uma das figuras mais populares de Estiva. O primeiro filme deu nome à Mostra Delinho de Cinema, promovida anualmente na terra natal do personagem. Na semana passada, o cineasta concluiu o filme ‘Agenor Ferro Véio’, que expõe a trajetória de outro estivense folclórico. “Gosto de documentários porque existem pessoas muito interessantes no mundo. Através de seus olhares aprendo novas formas de ver e tento passar isso para outras pessoas”, diz Chiarini sobre a repetição da fórmula que consagrou Delinho.

Quem é – Flávio Antônio Chiarini Pereira, 29, é pouso-alegrense, mas passou a maior parte de sua vida em Estiva. Após graduar-se em Educação Física pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), retornou ao Sul de Minas para lecionar em Pouso Alegre, Estiva, Cambuí e Bom Repouso. Seu envolvimento com a sétima arte se deu a partir da seleção de ‘A História de Delinho’ para o projeto Revelando os Brasis, do governo federal. Depois desse filme, Chiarini voltou a morar em Florianópolis, onde cursa Cinema na UFSC.

‘Empreendedores mirins’ expõem trabalhos em SRS


[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O Centro Educacional Alegria de Viver (Ceav), de Santa Rita do Sapucaí, promoveu no dia 30 de outubro a quarta edição da Expo Sonho, feira anual de ‘empreendedores mirins’. Todos os 96 alunos da instituição apresentaram trabalhos em estandes montados no Ginásio Poliesportivo Municipal Dr. José Alcides Rennó Mendes (Alcidão). Com o tema ‘História de Sucesso’, a feira deste ano expôs a trajetória de dez empresas santa-ritenses criadas há mais de uma década.

O projeto é uma das atividades da disciplina Empreendedorismo, presente na grade curricular do pré de 4 anos até a 5ª série do ensino fundamental. Cada turma escolheu o nome de uma empresa fictícia. As salas foram divididas em grupos, cada qual responsável por representar uma empresa real. De acordo com a diretora do Ceav, Maria Cleusa da Silva, a feira foi criada para desenvolver a oralidade e a desinibição das crianças.

A turma do 4º ano recebeu o nome de ‘Rádio Gazeta Kids’ e apresentou a história da Rádio Difusora Santarritense, que completou 62 anos em 2009. Os alunos visitaram as duas emissoras do grupo empresarial (Difusora AM e D2 FM), onde emprestaram alguns materiais para a exposição, como discos de carvão e vinil, antigos aparelhos de rádio e uma vitrola. Uma das componentes da equipe, Giovanna, é bisneta do fundador da empresa, Ruy Brandão. O diretor administrativo da Difusora, Richard Wagner Brandão, visitou a feira e declarou que ‘Seu Ruy’ foi um exemplo de persistência.

Outra empresa tradicional da cidade, a Tipografia São Miguel, foi homenageada pela equipe ‘Tipo e Grafia’, do 3º ano. A oficina cedeu às alunas Gabriela, Nathália e Ana Clara alguns exemplares do jornal ‘O Correio’, editado pela empresa durante 30 anos. O trio exibiu também uma caixa de tipos (letras de metal usadas na impressão de jornais, cartazes e panfletos). À frente da tipografia há 41 anos, Ivo de Carvalho foi representado no evento pelo filho Luciano, que disse que o fundador “aprendeu tudo pelo esforço e pela criatividade”.

Fotos: Jonas Costa

Negociação salarial é encerrada no Vale da Eletrônica

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

A negociação salarial entre as entidades que representam o operariado (Sindmetsrs) e a classe patronal (Sindvel) de Santa Rita do Sapucaí chegou ao fim na última semana. Os sindicatos acordaram os seguintes valores, retroativos a 1º de outubro: piso de R$ 520 para empresas com até 120 funcionários (aumento de 11,83%); piso de R$ 570 para firmas com mais de 120 empregados (acréscimo de 11,88%); reajuste de 8% para quem recebe acima do piso e abaixo de R$ 1 mil; e aumento de 7% àqueles que ganham mais de R$ 1 mil.

No início da campanha salarial, o Sindmetsrs reivindicou pisos entre R$ 637,91 e R$ 739,98. Após algumas reuniões com dirigentes do Sindvel, os representantes dos trabalhadores passaram a defender os valores mínimos de R$ 534 e R$ 585, conforme a quantidade de funcionários da empresa. Insatisfeitos com a contraproposta dos empresários, os operários iniciaram a mobilização sindical no final de setembro, mas não houve paralisação de atividades.

Os dois sindicatos chegaram a um consenso sobre as cláusulas sociais a serem observadas nos próximos dois anos. A presidente do Sindmetsrs, Maria Rosângela Lopes, ressalta duas conquistas: a obrigatoriedade de toda empresa reservar locais para amamentação de filhos de operárias, e a flexibilização do horário para o trabalhador-estudante. Não houve acordo quanto à criação de creches, mas Lopes entregou aos empresários um projeto de centro de educação infantil, elaborado pela Prefeitura, para atender 250 crianças.

A reportagem procurou o presidente do Sindvel, Roberto de Souza Pinto, e o representante da classe patronal na negociação salarial, Gustavo Bueno Borges, mas não conseguiu entrevistá-los.

Marketing do suicídio

Obsolescência planejada (ou programada). O nome é complicado, mas tem significado bastante simples. Esta expressão denomina uma estratégia do capitalismo que consiste em programar a substituição dos produtos, de tempos em tempos, para que os mais novos sempre pareçam indispensáveis. Isso significa introduzir bens e serviços no mercado já calculando quando cairão em desuso para dar lugar a futuros lançamentos.

Dos celulares aos veículos, das bolsas femininas às geladeiras, tudo é renovado em velocidade crescente. É cada vez mais comum ouvir que determinado modelo saiu de linha ou caiu de moda. A obsolescência planejada cria postos de trabalho, gera renda, faz girar a roda da economia, mas, por outro lado, é responsável por efeitos nefastos, como o aumento de vários tipos de poluição, o aprofundamento do individualismo e a alienação de mentes.

A pior consequência dessa estratégia ambiciosa e irresponsável é a ampliação do consumo desnecessário e irracional. Torpedeados por propagandas que ‘vendem’ um estilo de vida considerado moderno, os consumidores não hesitam em comprar o automóvel que simboliza arrojo, o celular recomendado pela protagonista da novela, o computador portátil que teria despencado 50% numa promoção... Aí entra a obsolescência perceptiva, ou seja, a impressão de que algo não serve mais porque é démodé.

Os níveis de consumo atuais são insustentáveis. Para satisfazer às necessidades artificiais da humanidade, não há outro caminho senão o uso dos recursos naturais – sinônimo de destruição da natureza e da qualidade de vida na Terra. Quanto maior o consumo, maior a produção. Mais produtos exigem mais embalagens e mais combustíveis para que as novidades cheguem às prateleiras.

Incontáveis problemas são provocados pelo consumismo sem limites. Toneladas de baterias e pilhas são descartadas inadequadamente todos os dias, contaminando o solo, a água e a vida. Atira-se tudo em latas de lixo com a ilusão de que se está jogando fora. No entanto, os frutos do consumo supérfluo só podem ser jogados dentro. Dentro de um planeta agonizante. Dentro de um futuro sombrio.

30 de out de 2009

Pouco divulgada, poluição luminosa já é discutida no Vale do Sapucaí


[Reportagem de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Uma rápida pesquisa em qualquer site de busca é suficiente para se constatar que a poluição luminosa tem sido menos citada na internet do que outras formas de poluição (do ar, das águas, do solo, sonora, visual e atmosférica). O tema ainda não recebe muita atenção da imprensa nacional, mas já vem sendo discutido em algumas cidades do Vale do Sapucaí. Para reunir informações e opiniões a respeito da poluição luminosa, a Gazeta do Vale procurou sul-mineiros que se preocupam com este problema.

Saulo Gargaglioni, mestre em engenharia da energia pela Universidade Federal de Itajubá (Unifei), explica que a poluição luminosa pode ser definida como “a luz externa mal-direcionada que não é aproveitada devidamente, causando o brilho visto acima das cidades, ao invés de somente iluminar o chão”. Trata-se, portanto, do desperdício de iluminação artificial durante a noite. Isso ocorre, segundo Gargaglioni, quando há dispersão de luz acima da linha do horizonte, o que reduz a luminosidade no chão e, por outro lado, projeta um brilho alaranjado no céu.

A poluição luminosa contribui para o aquecimento global, pois aumenta a emissão de gases do efeito estufa. Além disso, a exposição à luz no período noturno pode aumentar a incidência de câncer de mama, já que a glândula pineal só sintetiza o hormônio melatonina no escuro. “A redução desse hormônio tem sido altamente correlacionada com o aumento do risco de câncer de mama. A incidência de câncer de mama em mulheres que trabalham em turno invertido é maior do que em mulheres que trabalham durante o dia”, relata Gargaglioni. Outro efeito negativo, provocado quando a iluminação excessiva invade as casas, é a queda da qualidade do sono, que pode ocasionar estresse.

O ambientalista Guilherme Abraão, de Estiva, alerta para as consequências da poluição luminosa na vida de algumas espécies animais. “Dia e noite são ciclos fundamentais para a manutenção da vida no planeta. Em muitos locais, as luzes artificiais transformam noite em dia, ou seja, 24 horas de luz, de claridade. Assim, muitas espécies não conseguem se adaptar ou se desenvolver e, dessa forma, acabam acontecendo desequilíbrios ambientais”, lamenta. Abraão cita como exemplo a migração de tartarugas em regiões litorâneas: “Elas procuram locais sem iluminação para desovar. Como existem poucos lugares sem luz, elas acabam se concentrando, facilitando o ataque dos predadores”.

Gargaglioni frisa que a ciência é uma das áreas mais prejudicadas pela degradação do céu. Técnico do Observatório do Pico dos Dias (Brazópolis/Piranguçu), o pesquisador da Unifei comenta que “parte da luz direcionada para o espaço é refletida por gotículas formadas pela umidade e partículas de pó atmosféricas, causando um fundo luminoso que sobrepõe à luz natural do céu e das estrelas”. Assim, forma-se um obstáculo para a observação de estrelas por astrônomos. O presidente do Clube de Astronomia e Cultura de Cambuí, Eurico Wagner Silva, relata que a poluição luminosa dificulta as atividades da entidade. “No sentido de que existimos devido ao nosso interesse de observar o céu, é óbvio que uma iluminação propícia ajudaria muito”, afirma Silva.

Soluções – Saulo Gargaglioni entende que a redução da poluição luminosa depende de planejamento dos sistemas de iluminação. Entre as ações necessárias, diz ele, estão o posicionamento correto de lâmpadas e o uso de luminárias eficientes em espaços públicos, painéis publicitários, fachadas e monumentos. O pesquisador afirma que Pouso Alegre, Itajubá e Santa Rita do Sapucaí já substituíram lâmpadas de vapor de mercúrio por outras de vapor de sódio, “mais modernas, eficientes e econômicas”. Para Gargaglioni, a situação estaria melhor se as três cidades adotassem luminárias que reduzam a poluição luminosa. “Os ‘globinhos’ que são utilizados nas praças são grandes vilões”, diz.

Na opinião de Eurico Silva, os municípios de Cambuí, Estiva e Córrego do Bom Jesus têm poluição luminosa relativamente pequena, mas falham por não combaterem o desperdício de luz artificial. “A correta angulação das luminárias públicas, algo extremamente simples, já resolveria a maior parte do problema”, resume o presidente do Clube de Astronomia. Guilherme Abraão acredita que a redução desse tipo de poluição deve ser buscada tanto pelo poder público como pela iniciativa privada. O ambientalista sugere que os governos diminuam impostos ou subsidiem a aquisição de lâmpadas que “duram mais e consomem menos”.

Segundo Gargaglioni, Itajubá e Santa Rita são bons exemplos de combate à degradação do céu. O prefeito itajubense Jorge Renó Mouallem (PTB) decidiu que só aceitará a instalação de luminárias que combatam a poluição luminosa e determinou que as novas empresas da cidade recebessem orientações para evitar o mal-direcionamento da luz. Já o Vale da Eletrônica é, de acordo com o pesquisador da Unifei, o primeiro município brasileiro a incluir em seu plano diretor ações que evitam a poluição luminosa.

Imagem: Divulgação

Murilo Badaró lançará biografia de Bilac Pinto

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O escritor Murilo Badaró, 78, pretende lançar até o final deste ano uma biografia do jurista santa-ritense Olavo Bilac Pinto (1908-1985), cujo texto foi concluído no início de outubro. Ex-senador da República e ex-ministro de Indústria e Comércio, Badaró já havia transformado em livro as trajetórias de três políticos mineiros: José Maria Alkimim, Gustavo Capanema e Milton Campos. Afastado da vida pública desde 2006, o autor tem se dedicado à literatura e preside a Academia Mineira de Letras.

‘Bilac Pinto, o homem que salvou a República’ é o título escolhido pelo escritor, que trabalhou 10 meses para resumir os 77 anos do jurista. Badaró assim batizou a obra por entender que a participação de Bilac no golpe militar de 1964 foi fundamental para derrotar o comunismo no Brasil. “Quando Bilac denunciou a ‘guerra revolucionária’ em preparação pelas esquerdas ligadas ao regime cubano, soviético e albanês, ele salvou a República brasileira do domínio comunista, cujos seguidores tentaram em 1964 pela terceira vez dominar o Brasil e extinguir o regime democrático característico da verdadeira República”, alega.

Badaró e Bilac ficaram do mesmo lado durante a ditadura militar, mas atuavam em facções distintas antes do golpe: o primeiro pertencia ao PSD de Juscelino Kubitschek e o segundo era um dos líderes da UDN de Carlos Lacerda. Apesar das divergências no período pré-64, o escritor diz que sempre respeitou e admirou o udenista santa-ritense. Na opinião de Badaró, Bilac Pinto se destacou principalmente nas funções de político e magistrado – foi presidente da Câmara dos Deputados e da UDN, embaixador do Brasil na França e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), além de ser advogado, professor e empresário.

A biografia cita um detalhe curioso da história recente do país: o suposto desejo do marechal Castelo Branco em eleger Bilac para sucedê-lo no Palácio do Planalto. “Há sobejas provas no livro”, avisa o biógrafo. A eleição presidencial de 1965 acabou não acontecendo, o que frustrou os planos de Bilac, JK e Lacerda. Mas Badaró acredita que esse não foi o momento mais triste da vida do jurista. A pior notícia viria em 1983, com a morte do filho Francisco Bilac Moreira Pinto, aos 49 anos, num acidente automobilístico.

‘Chico do Bilac’ era pai do atual deputado federal Olavo Bilac Pinto Neto (PR-MG). Outra neta do jurista é Gisela Pinto Zingoni, proprietária da editora que lançará a biografia.

Municipalização do trânsito será discutida em fórum

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Municipalizar o trânsito em Santa Rita do Sapucaí. Esta é uma das propostas a serem debatidas no 1º Fórum Municipal de Segurança no Trânsito, marcado para o dia 6 de novembro. A Polícia Militar – atual responsável pela fiscalização do setor – promoverá o encontro em parceria com o Conselho Comunitário de Segurança Pública (Consep), a Guarda Municipal (GM) e o Grupo de Escoteiros Papa-Léguas. O fórum dará continuidade às ações desenvolvidas na cidade durante a Semana Nacional do Trânsito (18 e 25 de setembro).

A ideia inicial dos organizadores do evento era realizar um amplo fórum sobre segurança pública, já que estatísticas da PM divulgadas em julho apontaram Santa Rita como a cidade mais violenta do Sul de Minas. Mas, como explica um dos idealizadores do debate, o índice de criminalidade do município começou a cair a partir de duas medidas do governo estadual: designação de um delegado cooperador e assunção da cadeia pública pela Subsecretaria de Administração Prisional (Suapi). “A cadeia era o maior problema. O trânsito é a segunda preocupação relacionada à segurança”, diz o professor Giácomo Henrique Costanti, vice-presidente do Consep.

Costanti defende a elaboração de um projeto de lei que transfira para o Município a tarefa de fiscalizar o comportamento de motoristas e pedestres. Para ele, é preciso regulamentar a lei complementar 61/2006, que confere essa função à Guarda Municipal. O professor salienta que a principal atribuição da GM é proteger o patrimônio público municipal e completa: “O maior patrimônio do município é a vida humana”. O comandante da corporação, José Antônio Cruz Bastos, é outro defensor da municipalização do trânsito. Bastos comenta que, com a possível mudança, a GM poderia realizar blitze com a finalidade de evitar a entrada de drogas e armas na cidade.

A Guarda Municipal tem 28 integrantes, além de duas viaturas e duas motocicletas. Se essa estrutura estivesse voltada para o trabalho no trânsito, diz Bastos, a Polícia Militar teria condições de intensificar o patrulhamento ostensivo. Costanti e Bastos propõem a seguinte divisão de funções: a GM fiscalizaria o tráfego e a PM faria as autuações necessárias. A Prefeitura contribuiria com a ampliação do orçamento da Divisão de Trânsito para sinalização e campanhas educativas.

Para Costanti, a municipalização do trânsito facilitaria a intervenção da Prefeitura no trecho da rodovia BR-459 que coincide com o perímetro urbano de Santa Rita. Segundo ele, a sinalização entre os loteamentos Ipanema e São José é deficiente. No meio do caminho está o bairro Pedreira, isolado após a duplicação da estrada. Durante o fórum, serão discutidas ideias que podem tornar a travessia mais segura na região da Pedreira – a principal delas é o projeto de uma passarela para pedestres. Outro problema é a interrupção de uma estrada vicinal nas proximidades do almoxarifado da Prefeitura. “Quem vem para a cidade entra na rodovia na contramão”, explica Costanti.

As falhas de sinalização em três trevos do município também serão debatidas no fórum. O caso mais preocupante é o do ‘trevo de Cachoeira’, com alto índice de acidentes graves e até fatais. Algumas ideias a serem discutidas serão retiradas de um estudo solicitado pela Prefeitura ao subcomandante da PM em Santa Rita, segundo-tenente Maximiliano Silva Soares. O fórum terá também uma palestra do delegado de polícia de São Lourenço, José Walter da Mota Matos, sobre segurança no trânsito. O evento acontece a partir das 19h30 no auditório da Escola Estadual Dr. Luiz Pinto de Almeida.

26 de out de 2009

A volta da UDR

A sigla UDR tinha status de partido político na segunda metade da década de 1980, tamanha era sua exposição no noticiário político. O auge da influência da União Democrática Ruralista deu-se entre a Assembleia Nacional Constituinte (87/88) e a campanha presidencial de 1989. O então presidente da UDR, o goiano Ronaldo Caiado, era o rosto mais conhecido do movimento e chegou a concorrer ao Palácio do Planalto.

Caiado tornou-se, mais tarde, deputado federal e líder da bancada ruralista – grupo de parlamentares ligados ao setor agropecuário. A UDR submergiu nos anos 90 e hoje tem existência cartorial. O espaço político da outrora temida entidade vem sendo assumido nos últimos anos pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

O novo rosto dos ruralistas brasileiros é o de Kátia Abreu, presidente da CNA e senadora do DEM de Tocantins. Vaidosa, sempre maquiada e com acessórios modernos, Kátia é a antítese de Heloísa Helena em todos os sentidos. As diferenças entre as duas ficaram mais nítidas na semana passada, quando os ruralistas conseguiram criar uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para investigar supostas irregularidades envolvendo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Kátia Abreu e seus companheiros da direita são os proponentes da CPI, ao passo que Heloísa Helena e outros líderes de esquerda condenam a investigação. A comissão deve centrar suas baterias nos canais de financiamento do MST, especialmente em repasses do governo federal. Quando o destino do dinheiro público é colocado sob suspeita, o mínimo que se espera é esclarecimento. Mas investigar e perseguir são verbos distintos. O MST será alvo da terceira CPI em cinco anos.

O surgimento da mais nova comissão de inquérito do Congresso é, principalmente, uma reação dos ruralistas à luta do MST pela revisão dos índices de produtividade da terra (os parâmetros vigentes para desapropriações são de 1975). O Brasil, que ainda não fez sua lição de casa na reforma agrária, não precisa de mais uma CPI contra um movimento social.

Urge investigar fatos mais preocupantes, como a liderança do país no consumo de agrotóxicos (713 milhões de toneladas na safra passada). Os responsáveis por esse vergonhoso título não são os sem-terra ou os agricultores familiares, mas o agronegócio representado pela CNA. É a velha UDR com botox, um pouco de maquiagem e mais veneno.