16 de jan de 2009

Bilac apoiou 'contra-golpe' e mirava Planalto, diz biógrafo

[Entrevista a Jonas Costa publicada na Gazeta do Vale]

O escritor Murilo Badaró (foto), 77, pretende concluir em julho sua próxima obra: a biografia do jurista e político santa-ritense Bilac Pinto (1908-1985). Badaró foi entrevistado com exclusividade pela Gazeta na última semana e comentou sobre a trajetória de Bilac.

Para o biógrafo, o santa-ritense participou da articulação do movimento militar de 1964. Segundo Badaró, houve um "contra-golpe" para evitar uma "guerra revolucionária". O escritor acredita que o primeiro presidente do ciclo militar, Castello Branco (1897-1967), pretendia lançar um nome civil à sua sucessão. "E este civil era Bilac", completa.

Murilo Paulino Badaró é advogado e presidente da Academia Mineira de Letras. Foi deputado, senador e ministro da Indústria e Comércio. Olavo Bilac Pereira Pinto, também advogado, ocupou os cargos de deputado, embaixador do Brasil na França e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Como surgiu a ideia de escrever a biografia de Bilac Pinto?
Badaró –
É um trabalho profissional de escritor a convite da família do ministro Bilac Pinto, que executo com grande prazer.

Que lembranças o senhor guarda de Bilac?
Badaró – Nunca tive contatos pessoais com o ministro Bilac. Somente por uma vez conversei trivialidades com ele em Brasília, ele já aposentado no Supremo e eu deputado federal. Mesmo adversários na política, sempre o respeitei como um grande homem público.

Como o senhor classifica os posicionamentos políticos de Bilac Pinto?
Badaró – O então deputado Bilac Pinto era homem de convicções fortes. Não falava sem antes meditar sobre o que falaria e suas repercussões. Tudo o que disse, seja do ponto de vista do legislador ou das decisões proferidas como jurista, teve grande importância em sua época.

Bilac integrava a ‘Banda de Música’, ala radical da UDN, ao passo que o senhor militava no PSD. Algo os aproximava?
Badaró – Tudo no seu devido tempo em que nossos partidos divergiam profundamente. Nada nos unia, senão o amor pelo Brasil e a moralidade na vida pública.

Quais foram os maiores feitos de Bilac Pinto, em sua opinião?
Badaró – Bilac teve intensa vida como parlamentar. São de sua autoria a emenda que estabeleceu o monopólio estatal do petróleo, a lei que pune o enriquecimento ilícito, a legislação sobre contribuição de melhoria, vários projetos em defesa do trabalhador e a denúncia sobre a "guerra revolucionária". Como ministro do Supremo, são admiráveis alguns acórdãos de sua lavra, em julgamentos de que participou.

O senhor endossa a tese de que Bilac foi um dos articuladores do golpe militar de 1964?
Badaró –
Bilac foi um dos articuladores do contra-golpe de Estado que estava sendo tramado por João Goulart e [Leonel] Brizola em 1964.

O livro ‘Guerra Revolucionária’, escrito por Bilac, teve papel relevante no golpe de 1964?
Badaró –
Suas denúncias sobre o andamento da ‘guerra revolucionária’ no Brasil despertaram as atenções dos militares para o perigo da subversão comunista da época. Como tal, teve papel relevante na contra-revolução de 1964, uma ação contra-revolucionária ao golpe que estava iminente sob patrocínio do governo Goulart.

Bilac pretendia se candidatar a presidente da República na década de 1960?
Badaró –
Bilac era o candidato do presidente Castello Branco para sucedê-lo na presidência da República. Tal não aconteceu por que Castello foi vencido pela linha dura militar que queria Costa e Silva. Castello Branco desejava ardentemente colocar um civil em seu lugar e este civil era Bilac Pinto. Há abundantes provas disso.

Bilac temia uma "República sindicalista" durante o governo João Goulart, mas seu neto e herdeiro político integra a base de sustentação do presidente Lula, ex-líder sindical. A geração do velho Bilac era sectária ou falta firmeza à geração de Bilac Neto?
Badaró – Os tempos são outros, também as personagens. Seu neto, o deputado Bilac Pinto Neto, é um dos melhores quadros da política mineira e nacional. Bilac era homem de opinião, nunca foi sectário e ao seu neto sobram virtudes.

O senhor já entrevistou ou pretende procurar moradores de Santa Rita do Sapucaí para reunir informações sobre o personagem de seu livro?
Badaró – Já conversei com várias pessoas de Santa Rita recolhendo informações. A falta de seus contemporâneos e de jornais locais de sua época em Santa Rita dificultou a pesquisa.

Quando e por qual editora será lançada a biografia?
Badaró – Espero entregar meu trabalho no próximo mês de julho. A editora ficará a cargo da família.

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