11 de fev de 2009

Escravos da insensibilidade

Santa Rita do Sapucaí perdeu ontem uma oportunidade de contribuir para a reparação dos crimes cometidos contra os negros brasileiros. Em votação secreta, sete dos nove vereadores da cidade sepultaram o projeto de lei que instituiria o feriado municipal do Dia da Consciência Negra. A proposta havia sido aprovada pela Câmara em dezembro, na penúltima sessão da legislatura 2005-2008, mas retornou à Casa depois do veto do prefeito Paulo Cândido da Silva (PV).

A decisão do prefeito teve apoio maciço do empresariado, classe à qual pertence. Várias vozes se levantaram contra o novo feriado. Falou-se em prejuízo irreparável ao comércio e à indústria locais. O Dia da Consciência Negra encontrou no presidente da Câmara, Magno Magalhães Pinto (PT), seu único defensor. Somente o petista ousou dizer o que a maioria dos vereadores ignorou: prejuízos irreparáveis foram aqueles sofridos pelos escravos e seus descendentes.

Esqueceram-se os críticos da proposta que os negros derramaram sangue, suor e lágrimas antes e depois da abolição da escravatura. Ninguém notou que nosso calendário não dedica feriado algum aos negros. Comemorar a falsa independência do Brasil pode. Celebrar a proclamação de uma República de faz-de-conta pode. Luta pela liberdade só vale se o mártir for o branco Tiradentes.

Lembraríamos a morte do herói Zumbi dos Palmares em 20 de novembro, mas o Dia da Consciência Negra passará em branco. Pura insensibilidade. Contra o feriado, disseram até que a data deve ser comemorada com trabalho. Comemorar o quê? As mortes, os sofrimentos e o preconceito? Só se for a vitória da casa-grande que ocorreu na casa do povo santa-ritense.

Não se labuta nem no Dia do Trabalho, mas em 20 de novembro continuaremos escravos dos senhores de engenho eletrônico.

2 comentários:

:: Cíntia Ferreira :: disse...

Oi, Jonas.
Muito boa sua colocação em relação ao feriado. Infelizmente, o poder legislativo do munícipio de SRS tomou uma decisão sem nenhuma sensibilidade da importância da data para a cidade.
Mas... fazer o que?
Um grande abraço,
Seu blog tá excelente!!
TE AMO!

Evandro disse...

O grande problema é o excesso de trabalho. Acho que os nossos virtuosos empresários trabalham demais. Um diazinho a menos na produção das engenhocas neo-modernísticas, não faria mal ao bolso dos laboriosos neo-cafeicultrônicos de Beiral das Ribanceiras. A saber: dividamos o 1 bilhão de reais faturados por esta turba do escárnio capitalista em 2008. Dividamos por 365. Teremos 3 milhões de reais deixados de faturar... Uma preguiçinha de um dia representaria uma Hilux a menos...
Ademais, lamento pelas mentes positrônicas do futuro Vale da Sucata, destes hébrios pelo trabalho, desta masturbação dramática diária de achar que é alguém melhor do que outrem. Que Zumbi dos Palmares seja lembrado assim: tão somente pela intolerância de vermes e fascistas de todos os tempos. E não somente por uma data.