20 de mar de 2009

Crise do café mobiliza produtores sul-mineiros

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Milhares de cafeicultores do Sul de Minas participaram de um protesto em Varginha na segunda-feira, 16. A Marcha pelo Café foi organizada pelo movimento SOS Cafeicultura para reivindicar apoio do Governo Federal ao setor. Os produtores reclamam da desvalorização do grão e querem pagar suas dívidas em sacas de café. Os organizadores do movimento aguardavam 20 mil participantes, mas os cálculos da Polícia Militar varginhense apontam para um número aproximado de 13 mil pessoas.

Líderes do SOS Cafeicultura alegam que a crise começou há 10 anos. De 2000 a 2008, os custos de produção do setor teriam crescido 500%, ao passo que o valor da saca de café subiu 22%. Os cafeicultores brasileiros acabaram contraindo uma dívida superior a R$ 4 bilhões com bancos. O movimento defende que esse débito seja quitado em sacas de café – cada uma valendo, no mínimo, R$ 320. Os cafeicultores entregariam essas sacas ao governo em 20 anos, sem desembolsar dinheiro para pagar juros.

Segundo os manifestantes, a atividade cafeeira é responsável pela geração de dois milhões de empregos diretos e oito milhões indiretos no país. As demissões no setor aumentaram a partir de outubro do ano passado. Somente no Sul de Minas, cerca de 400 mil trabalhadores perderam seus postos de trabalho nesse período. O Sindicato dos Produtores Rurais de Santa Rita do Sapucaí estima que mil demissões ocorreram na cidade desde outubro por conta da crise na cafeicultura.

Santa Rita foi representada na Marcha pelo Café por aproximadamente 200 produtores. Estiveram presentes alguns dirigentes do Sindicato Rural e da Cooperativa Regional Agropecuária (CooperRita). O presidente da Comissão de Café da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o santa-ritense Breno Mesquita, também participou do protesto. Empresas de Santa Rita penduraram faixas pretas em suas fachadas para sinalizar o apoio da Associação Comercial e Empresarial do Vale da Eletrônica (Acevale). As igrejas católicas se manifestaram tocando sinos durante a manhã de segunda.

O presidente do Sindicato Rural, Leonilton Moreira, acredita que a crise do café provocou um prejuízo de mais de R$ 3 milhões à economia santa-ritense nos últimos 10 anos. O líder ruralista afirma que dois mil trabalhadores atuam nos cafezais do município. Para ele, a administração federal tem sido omissa em relação às dificuldades dos cafeicultores. “O governo não dá atenção para o café. Não fez preço mínimo, deixou a Deus dará. Vamos desempregar muita gente se o governo não tomar uma providência”, diz.

Leonilton alerta que há casos de produtores que deixaram de plantar café por causa das condições desfavoráveis. “Já saiu muita gente. Só não saiu mais porque não tem para quem vender. Ninguém quer terra hoje. O sujeito só compra se tiver muito dinheiro sobrando”, comenta. Opinião semelhante é manifestada pelo gerente do Departamento de Café da CooperRita, Cláudio Lúcio Domingues: “Tem muita gente abandonando. Quem vai querer tomar conta de um negócio que dá prejuízo todo ano? Neste momento de crise, tem um monte de fazenda à venda e não está tendo oferta”.

O cafeicultor Gilberto Nogueira Cellet, de Cachoeira de Minas, considera crítica a situação dos produtores da região sul-mineira. Dos cafezais de Gilberto saem mais de cinco mil sacas de café por ano. Sua família cultiva o grão há três gerações. Para o cachoeirense, a continuidade desse trabalho depende da renegociação das dívidas. “Os produtores não querem perdão de dívida, querem pagar suas contas”, esclarece.

O presidente da Acevale, José Norberto Dias, entende que não basta auxílio financeiro do Governo Federal para quitar débitos. O dirigente empresarial defende que órgãos estatais mantenham uma política de estímulo permanente às vocações econômicas de cada região do país.

Foto: divulgação

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