5 de mar de 2009

Por acaso?

Salatiel Soares Correia é ex-aluno do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel). Engenheiro, administrador de empresas e mestre em Planejamento Energético, ele escreve textos para o Diário da Manhã, de Goiânia (GO). Foi esse periódico que veiculou seu artigo “O Vale da Eletrônica”, em 21 de fevereiro.

Para um santa-ritense minimamente interessado na história do município, não há nada de novo no texto. Mas é interessante notar que Santa Rita do Sapucaí se torna inesquecível àqueles que a conhecem. Não deve ser por acaso...

Eis o artigo:

“Um antigo princípio da ciência administrativa nos ensina que o acaso nunca acontece, pois tudo tem uma razão de ser. Aquilo que dá certo é o resultado de ações estratégicas resultantes do planejamento de longo prazo. O que dá errado é o resultado do imprevisto, do descompromisso para com as gerações futuras. Essa verdade se torna mais evidente ainda quando o assunto é educação.

Digo isso porque intenciono neste artigo abordar o sucesso de uma região que conheci há trinta anos quando, ainda jovem, fui para lá cursar Engenharia. Trata-se do Vale da Eletrônica no sul do Estado de Minas Gerais.

Naquela época, a região começava a mostrar fôlego se articulando com os dois centros que deram, ao longo desses anos, sustentação técnica e acadêmica para que o Vale viesse a se tornar o que atualmente é: um dos maiores pólos de eletrônica da América Latina. No caso, as instituições que davam e até hoje dão suporte ao considerável desenvolvimento da região são o Instituto Nacional das Telecomunicações (Inatel), pioneiro no País na formação de engenheiros de telecomunicações, e a Escola Técnica Francisco Moreira da Costa (ETE), pioneira na América Latina no ensino técnico de Eletrônica. Desse modo, Inatel e a ETE construíram um ambiente estimulante, onde as ideias em torno da alta tecnologia transbordavam naquela região fria e montanhosa das Minas Gerais.

O crescimento do Vale da Eletrônica transformou este num dos maiores pólos do País a produzir tecnologia não só para o mercado interno, mas, sobretudo, para inúmeros países da Europa e da América Latina. De lá, por exemplo, saíram as urnas eletrônicas que o Tribunal Superior Eleitoral usou para modernizar as eleições no Brasil.

Foi lá também que se desenvolveu grande parte da ainda recente TV digital que começa a chegar aos lares brasileiros. No Vale estão localizadas empresas, que vi dar os primeiros passos, e hoje tem fôlego de multinacional. A Linear, a maior fabricante de transmissores de telecomunicações no Brasil, é uma delas. A Leucotron, fabricante de PABX, do meu colega engenheiro Dílson Frota, é outra.

Enfim, no Vale da Eletrônica se desenvolvem inúmeros produtos focados no ramo de eletrônica que muito têm ajudado o País a substituir importações.
Se formos esmiuçar a razão do sucesso daquele pedaço de Brasil que cresce desconhecendo a crise porque hoje passa o País, voltaremos ao que se disse no início deste artigo: de que as coisas não acontecem por acaso, pois têm uma razão de ser.

Vejamos um pouco dessa história. A semente do sucesso partiu da iniciativa pioneira de uma grande benemérita da região que consegui enxergar a importância da eletrônica no início dos anos 50: Luzia Rennó Moreira, carinhosamente conhecida por “Sinhá Moreira”. Integrante da elite local, sobrinha do ex-presidente da República Delfim Moreira e cunhada do ex- ministro Olavo Bilac Pinto. Dona Sinhá usou toda sua influência de integrante da tradicional família mineira para fundar a semente que deu origem ao sucesso da região: a Escola Técnica de Eletrônica. Em seguida, a influente classe política de Minas Gerais foi decisiva para o surgimento do Instituto Nacional das Telecomunicações.

Nesse ambiente estimulante, foram construídas estratégias que vêm sendo implementadas há quase meio século. O apoio dos governos federal, estadual e municipal articulado com uma classe empresarial muito empreendedora tendo suporte das instituições de ensino e pesquisa são partes do todo que explica o sucesso do Vale da Eletrônica e das mais de 130 indústrias de eletrônica e telecomunicações lá existentes. Por trás dele, existiram e ainda existem muitos sonhadores que dedicaram suas vidas para construção de um sonho que hoje é uma realidade que muito orgulha o País.

No momento em que escrevo estas linhas, me vêm à memória nomes como dos professores do então diretor de ensino do Instituto Tecnológico da Aeronáutica Aroldo Borges Diniz, do então diretor do Inatel, professor Luís Gomes da Silva Júnior. Do corpo docente do Instituto certamente contribuíram para construção desse sonho nomes de grande respeitabilidade, como a exemplo dos professores Mário Augusto, José Augusto Baeta, Navantino, Pedro Sérgio, José Maria, Adonias, Wander Chaves e tantos outros que souberam honrar a construção dessa grande obra.

Nesse rol, não posso deixar de citar a classe política mineira que entendeu que uma das molas do desenvolvimento de uma região se faz com educação de qualidade.”

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