19 de jun de 2009

Hora de jogar a toalha

Após meses nas cordas, o presidente do Congresso Nacional, senador José Sarney (PMDB-AP), começou a reagir na última semana. O velho coronel maranhense – que ora representa o Amapá – discursou na terça-feira, 16, no afã de desvincular sua imagem da crise ética vivida pelo Parlamento brasileiro. Gastou saliva e argumentos em vão. Sarney é a personificação dos anacrônicos métodos políticos que diz combater.

O mais antigo caudilho nordestino em atividade está no epicentro de uma crise iniciada em fevereiro, quando reassumiu a presidência do Senado Federal. Desde então, a chamada ‘Câmara alta’ tem sido alvo de uma série de denúncias envolvendo parlamentares e servidores. Os escândalos derrubaram dois altos funcionários da Casa: Agaciel Maia (diretor-geral) e João Carlos Zoghbi (diretor de Recursos Humanos) – o primeiro escondeu uma casa de R$ 5 milhões da Receita Federal e o segundo cedeu um apartamento funcional a parentes.

Como se não bastassem o pagamento de horas extras a 3 mil funcionários durante o recesso parlamentar e a descoberta de 600 atos secretos para nomear servidores, algumas suspeitas têm relação direta com a família Sarney. Nomeações não publicadas pelo Senado beneficiaram um neto e duas sobrinhas do ex-presidente da República. Já a filha do senador, governadora Roseana Sarney (PMDB-MA), usou recursos públicos para custear viagens aéreas de parentes e amigos.

Acossada por grandes veículos de comunicação e desafetos políticos, a velha raposa peemedebista saiu-se com esta: “A crise não é minha, é do Senado”. Declarou-se preocupado com o futuro do poder legislativo, mas não conseguiu ocultar sua parcela de responsabilidade na desmoralização da instituição. A reação de Sarney deixou ainda mais evidente o abismo entre seu discurso e a realidade do Congresso.

Conforme o raciocínio do moribundo cacique, os escândalos do Senado brasileiro refletem um suposto fenômeno mundial: “a crise da democracia participativa”. Ele alega que os meios de comunicação e as organizações não-governamentais buscam desqualificar os parlamentos para assumir parte de suas atribuições.

A imprensa sempre terá setores radicais e até golpistas. Mas o nocaute político de Sarney, se ocorrer, será provocado por seus próprios erros. Jogar a toalha seria menos humilhante.

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