25 de jul de 2009

Perigosos camaleões

Tudo parece normal na política brasileira. Velhos vícios são legitimados por não serem contestados – ou descobertos. A conduta criminosa de um indivíduo é perdoada por elementos igualmente infratores. O uso da máquina pública para fins particulares é justificado ao sabor das conveniências. Entre inúmeras práticas políticas reprováveis, há uma que tem se acentuado desde a redemocratização: o ziguezague fisiológico, ou seja, as constantes ‘mudanças de lado’ para obtenção de vantagens governamentais.

Todos os governos do período pós-ditatorial se serviram dos viracasacas. Aliás, o regime militar somente foi superado quando dissidentes do PDS (então partido do governo) romperam com os generais para apoiar a candidatura presidencial de Tancredo Neves, do quase oposicionista PMDB. Com a morte de Tancredo, o poder central ficou nas mãos de seu vice, o coronel José Sarney, um filhote da ditadura. O governo Sarney estimulou o fisiologismo distribuindo concessões de rádio e TV em troca de votos no Congresso Nacional.

Sarney foi sucedido por Fernando Collor, que lhe fazia oposição e prometia expulsar os marajás do templo. Apesar de neoliberal, a ‘República de Alagoas’ foi apoiada por supostos quadros de esquerda. Collor caiu e deu lugar ao vice Itamar Franco, que, seduzido pelos oportunistas, patrocinou o projeto presidencial de Fernando Henrique Cardoso. FHC, por sua vez, foi beneficiado pela emenda da reeleição, cuja aprovação pelo Congresso permanece sob a suspeita de compra de votos.

Quando Luiz Inácio Lula da Silva subiu a rampa do Planalto, acreditou-se que a governabilidade passaria a ser buscada de uma forma, por assim dizer, mais republicana. Mas PSDB e PFL (hoje Democratas) caminharam para a oposição, forçando uma aproximação entre PT, PMDB e pequenas legendas de aluguel. Assim surgiu a denúncia do ‘mensalão’, que teria sido usado para compra de apoio parlamentar.

A existência do ‘mensalão’ ainda não foi comprovada. Mas é triste ver que Lula pareça à vontade com aliados fisiológicos. Os recentes elogios a Collor e Renan Calheiros e o apoio incondicional a Sarney são baldes de água fria àqueles que acreditam em coerência na política. Os oportunistas agradecem, enquanto afiam seus punhais para futuras traições.

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