25 de set de 2009

Estado da cadeia de Santa Rita preocupa deputados


[Reportagem de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Celas superlotadas. Instalações elétricas precárias. Iluminação deficiente. Infiltrações por todo o prédio. Dois agentes para vigiar 80 detentos. Presos ociosos e sem assistência jurídica. Facilidade para fugir. A cadeia pública de Santa Rita do Sapucaí foi assim descrita pelos deputados estaduais que a visitaram na manhã de terça-feira, 22. Dois dias antes, dois criminosos haviam protagonizado a mais recente de uma série de fugas da unidade prisional – fato que se tornou frequente na cidade.

O presidente da Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa, João Leite (PSDB), declarou-se preocupado ao concluir a visita. “A impressão que a gente tem é de uma cadeia insegura, especialmente para a população, pela grande possibilidade de fuga permanente. Ela precisa de uma recuperação”, alertou. Leite observou que se trata de uma “situação provisória”, pois o controle da cadeia deverá ser assumido, em dezembro, pela Subsecretaria de Administração Prisional (Suapi). “Vamos embora daqui com o sentimento de que dezembro está distante. Podemos ter uma fuga amanhã, ou mesmo hoje, dada a vulnerabilidade da unidade”, completou o deputado.

A deputada Maria Tereza Lara (PT), vice-presidente da Comissão de Segurança Pública, manifestou sua preocupação com a ressocialização dos detentos de Santa Rita. Após percorrer as celas, a petista comentou que “99,9% dos detentos são jovens e estão sem trabalho, sem estudo, sem nenhuma atividade”. Para Lara, o estado atual da cadeia torna impossível ressocializar os encarcerados. Ela defendeu investimentos imediatos em educação, profissionalização, atendimento médico e assistência jurídica. A parlamentar frisou que cada preso brasileiro custa R$ 2,3 mil por mês aos cofres públicos e que esta quantia deve ser destinada à reintegração de apenados e serviços à sociedade.

Autor do requerimento que provocou a visita, o deputado Sargento Rodrigues (PDT) lamentou as condições de trabalho dos policiais militares e civis que atuam no estabelecimento de detenção. “O que estão fazendo aqui com os policiais é colocar a vida deles em risco o tempo todo. Não há como fazer segurança de cadeia pública apenas com um policial e um agente penitenciário. É humanamente impossível”, protestou o deputado e ex-PM. Rodrigues revelou que grande parte dos presos tem origem paulista e envolvimento com tráfico de drogas e roubo de cargas. O deputado considera que a situação da cadeia é “gravíssima” e chamou as instalações elétricas de “gambiarras”.

João Leite e Sargento Rodrigues destacaram que as condições da cadeia santa-ritense serão detalhadas num relatório a ser apreciado pela Comissão de Segurança da Assembleia. Maria Tereza Lara salientou que o colegiado não tem poder de execução, apenas o de reivindicação. “Aprovamos requerimentos, que são encaminhados aos órgãos públicos – à Secretaria de Defesa Social do estado, às chefias das polícias, ao governo do estado – reivindicando solução para os problemas que encontramos”, esclareceu a representante do PT.

Também integraram a comitiva os deputados Dalmo Ribeiro Silva (PSDB) e Ruy Muniz (DEM) e o subsecretário estadual de Políticas Antidrogas, Clóvis Benevides. Os seis políticos participaram, à tarde, de uma audiência pública na Câmara Municipal de Pouso Alegre. Durante a sessão, o comandante da 6ª Região da PM, coronel Márcio Martins Santana, confirmou que Santa Rita é considerada a cidade sul-mineira mais violenta entre 30 localidades avaliadas de janeiro a agosto deste ano. Já o prefeito de Pouso Alegre, Agnaldo Perugini (PT), declarou que a violência urbana deve ser combatida com inclusão social.

Foto: Cíntia Ferreira

Prefeitura planeja criação de centro de referência para professores

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

A Secretaria de Educação de Santa Rita do Sapucaí pretende iniciar em 2010 a implantação de um centro de referência para professores da rede municipal de ensino. O projeto vem sendo discutido por dirigentes da secretaria e tem como objetivo oferecer serviços de apoio aos docentes. A equipe liderada pelo secretário Norival Fernandes Mendes planeja desenvolver essas atividades na antiga sede do Centro Operário Santarritense, desapropriado pela Prefeitura em 2005.

O centro de referência atenderia aproximadamente 400 profissionais da educação (professores, especialistas e estagiários do sistema municipal). O projeto da Secretaria de Educação prevê espaços para estudo, reuniões, cursos de capacitação (presenciais e pela internet), além de uma ‘biblioteca do professor’. A secretaria já promove cursos e encontros, mas não dispõe de salas que comportem todos os professores da rede. Por isso, alguns eventos são realizados em dependências de outras instituições.

A diretora de Ensino Fundamental da secretaria, Rita Maria da Silva Dias, acredita que o trabalho do centro de referência resultará em elevação da qualidade do ensino. “A ideia principal é melhorar o índice da educação básica do município. Precisa melhorar. Todo município quer melhorar seu Ideb”, diz a diretora.

Segundo dados de 2007 do Ministério da Educação, o Ideb das escolas municipais de Santa Rita nos anos iniciais do ensino fundamental foi 4,2 – o índice vai de zero a 10. Esse desempenho coincide com a média nacional, mas é inferior aos resultados obtidos por outras cidades da região, como Pouso Alegre (4,9), Itajubá (5,2), Cachoeira de Minas (5,5) e Cambuí (5,8).

A rede municipal de ensino de Santa Rita é formada por oito escolas de ensino fundamental (cinco são rurais), três centros de educação infantil e um centro de educação para jovens e adultos.

Jogadoras de futsal reclamam apoio para competir


[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Elas começaram a chegar à quadra com timidez e curiosidade. Uma delas levou sua bola de futsal. Foi o bastante para reunir 20 meninas por dia de treino. No início, jogavam sem treinador, sem coletes, algumas até sem jeito. À medida que a habilidade crescia, aumentava a vontade de enfrentar outros times em outras cidades. Mas faltavam competições e condições. Algumas sentiam desânimo; outras, indignação.

Foram esses os primeiros lances da formação de um novo grupo de futsal feminino em Santa Rita do Sapucaí. As 42 meninas de 12 a 22 anos treinam no Ginásio Poliesportivo ‘Alcidão’ desde o início do ano. O jogo começou a virar há dois meses, quando a Prefeitura contratou o treinador Fábio de Souza Amarins, 27. No início de agosto, as garotas finalmente conseguiram participar de uma competição. Um veículo do Município as levou até Consolação, onde Santa Rita ficou em primeiro lugar na classificação geral.

As meninas santa-ritenses se dividiram em três times e disputaram partidas com equipes de Consolação e Munhoz. Além do título, Santa Rita ficou com a artilharia: a atacante Kátia Neli Ribeiro, 22, marcou 14 gols no certame. A artilheira se entusiasma com o resultado, mas diz que várias deficiências ainda precisam ser dribladas. A principal delas é a falta de patrocínio. “Falta bastante coisa. Falta a cidade conhecer o nosso trabalho. Falta material. Se as empresas daqui patrocinassem, tudo seria mais fácil”.

Kátia aponta outra dificuldade: a de encontrar competições de futsal feminino na região. A atacante sugere que a Prefeitura crie torneios e convide municípios vizinhos para jogar no Vale da Eletrônica. O técnico Fábio também veste a camisa de uma competição regional em Santa Rita. Ele pretende agendar partidas em cidades sul-mineiras para preparar as meninas e estimular o surgimento de campeonatos femininos na região.

Dona da primeira bola usada nos treinos, a zagueira Pryscilla Batista Moussa Dayoub, 14, diz que a vitória em Consolação atraiu mais jogadoras para o grupo. Pryscilla está ansiosa para voltar a competir, bem como a atacante Renata de Cássia Teodoro, 20. “A gente precisa participar de campeonatos de fora. Aqui [em Santa Rita] quase não tem campeonatos”, lamenta Renata.

Os treinamentos das garotas acontecem às terças e quintas-feiras, das 13h30 às 15h30. O técnico Fábio espera que o grupo cresça nos próximos meses e que os horários dos treinos sejam ampliados. Com novas adesões, diz ele, será possível dividir as atletas por categoria e montar mais times.

Foto: Jonas Costa

PM faz palestras e blitze na Semana do Trânsito

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Uma campanha educativa marcou a Semana Nacional do Trânsito deste ano em Santa Rita do Sapucaí. Palestras em escolas, distribuição de panfletos e afixação de faixas foram as atividades desenvolvidas pela Polícia Militar, com o apoio da Guarda Municipal, do Conselho Comunitário de Segurança Pública e do Grupo de Escoteiros Papa-Léguas. As ações aconteceram entre os dias 18 e 25 de setembro.

A PM promoveu palestras e distribuiu cartilhas em cinco instituições de ensino da cidade, sendo duas estaduais (Sanico Teles e Sinhá Moreira), duas municipais (Dr. José Ribeiro de Carvalho e Valéria Junqueira Paduan) e uma particular (Colégio Tecnológico Delfim Moreira). As conferências foram dirigidas a estudantes de 12 a 17 anos. Já as cartilhas foram entregues a alunos com até 10 anos.

A Semana do Trânsito foi inaugurada com a colocação de 17 faixas com orientações a condutores e pedestres. Uso do cinto de segurança, respeito à sinalização e à faixa de pedestres estão entre os temas das mensagens. Na segunda-feira, 21, a chuva não impediu que policiais, escoteiros e guardas municipais realizassem uma blitz educativa de 30 minutos na avenida Dr. Delfim Moreira. A panfletagem voltou a acontecer no encerramento da campanha, na sexta-feira, 25, quando houve blitze também na praça Santa Rita e na avenida Frederico de Paula Cunha.

Outro trabalho iniciado pela Polícia Militar na última semana é um estudo para apontar possíveis mudanças no trânsito da cidade. De acordo com o subcomandante da PM em Santa Rita, segundo-tenente Maximiliano Silva Soares, o documento foi solicitado pela Prefeitura Municipal para “melhorar a fluidez e a segurança no trânsito”. O estudo poderá propor redução do tempo de espera nos semáforos, novas regras para estacionar veículos no centro da cidade e criação de um órgão municipal de trânsito.

O preço da democracia

A Câmara dos Deputados aprovou nesta semana uma emenda constitucional que pode transformar 7.709 suplentes em vereadores. Em contrapartida, a mesma casa legislativa transformou em lei uma proposta que seria capaz de reduzir os gastos das câmaras municipais. Em tese, as duas medidas assegurariam maior representatividade ao eleitorado sem desperdício de dinheiro público.

Na prática, porém, há muitas dúvidas sobre essa estranha fórmula. A principal delas é o momento em que as mudanças passarão a vigorar. Os políticos esperam que as emendas tenham efeito imediato. Já os presidentes do Tribunal Superior Eleitoral e da Ordem dos Advogados do Brasil defendem que o novo número de cadeiras comece a valer após as eleições de 2012.

Outra dúvida é quanto à eficácia da emenda que estabelece novos limites de despesas. Mais vereadores significam mais gabinetes, mais assessores, mais computadores, mais papéis, mais telefonemas, mais combustível, mais cafezinhos quentes, mais notas frias. Nos municípios do Vale do Sapucaí, a maioria das câmaras de vereadores tem estrutura enxuta. As mordomias se concentram nas capitais e em outras cidades de grande porte. De qualquer maneira, todos os paços legislativos municipais terão de sofrer ajustes para acomodar os novatos.

As despesas das câmaras só despencariam de fato se o Congresso aprovasse uma proposta do senador Cristovam Buarque: igualar a zero os subsídios dos vereadores de municípios em que não há segundo turno. A intenção é louvável, mas o critério parece estranho e a eficiência, duvidosa. Não remunerar os parlamentares municipais não seria garantia de qualidade. E quem trabalha merece ser remunerado.

A substituição de ‘salários’ por ajudas de custo com prestação de contas representaria uma alternativa mais justa. A quantia dependeria dos instrumentos necessários ao exercício do mandato legislativo – não confundir com estrutura para fazer campanha eleitoral 24 horas. Vereador deve ter gabinete, e não comitê eleitoral financiado pelo cidadão.

Infelizmente, muitos deputados cobrarão a fatura dos suplentes beneficiados pela decisão da Câmara Federal. A consequência nefasta e inevitável dessa pressão será a formação de hordas de cabos eleitorais, pagos pelo povo, para as eleições de 2010.

21 de set de 2009

Socialismo é radicalização da democracia, diz Boff


[Entrevista a Jonas Costa publicada no Primeira Página*]

O catarinense Leonardo Boff, 70, tornou-se mundialmente conhecido na década de 1980 ao expor suas teses ligadas à Teologia da Libertação no livro “Igreja: Carisma e Poder”. A suposta leitura marxista do Evangelho e as críticas à hierarquia da Igreja de Roma lhe renderam punições decretadas pela Congregação para a Doutrina da Fé – órgão da Santa Sé dirigido à época pelo cardeal Joseph Ratzinger, hoje papa Bento XVI.

Ouvido pelo Primeira Página pouco antes de palestrar em Pouso Alegre, o teólogo e escritor explicou que a Igreja da Libertação “nunca tomou como referência nenhum ensaio socialista”. Socialismo, segundo o ex-frade franciscano, deve ser entendido como radicalização da democracia. Para Boff, a experiência comunista no Leste Europeu não passou de “ditadura do Estado e do partido”.

O teólogo da libertação discorreu também sobre a conjuntura política nacional, o pontificado de Bento XVI e as comunidades eclesiais de base (CEBs). Boff comentou a possível candidatura presidencial da senadora Marina Silva (PV-AC) e criticou o conservadorismo do atual líder da Igreja Católica.

Primeira Página – Ficou célebre o telefonema em que o senhor pediu à senadora Marina Silva que seja candidata à presidência da República. Como a ex-ministra reagiu a esse apelo?

Leonardo Boff – Não fiz apelo nenhum a ela para ser candidata. Ela me telefonou para pedir apoio no sentido de suscitar a questão ecológica como uma questão estratégica de todos os partidos, e não só do PV. E eu disse que essa causa eu apóio. A outra – de ela ser candidata ou não – ela mesma não sabe. E eu disse que, se ela assumir essa causa ecológica como fundamental para o Brasil e para a salvaguarda da vida do planeta, ela podia contar com meu apoio explícito. Mas isso é uma decisão pessoal dela, sobre a qual eu não queria opinar.

PP – Se Marina Silva não se candidatar à presidência pelo PV, a polarização Serra-Dilma terá algum sentido?

LB – Acho que tem um sentido, porque Serra representa o projeto político do Brasil neoliberal, articulado com o processo mundial de mercado, ao passo que Lula representa um Brasil mais republicano, mais ligado às questões sociais, um projeto mais brasileiro do que mundial. E, seguramente, o confronto será entre o que foi o governo de oito anos de Fernando Henrique e o que foi o governo de oito anos de Lula; as vantagens e limitações que cada um tem. Mas espero que a polarização não seja de comparação do que fez ou deixou de fazer, mas que se rediscuta que tipo de Brasil queremos para o tipo de mundo ameaçado pelo aquecimento global, pela crise mundial do sistema de convivência. O Brasil é um país-chave no sentido de garantir um futuro de esperança para a humanidade e de uma estabilização do planeta Terra, que está em situação de caos.

PP – É possível comparar Marina Silva ao fenômeno Obama?

LB – Acho que é possível, porque temos que aceitar o princípio da surpresa. Jamais imaginamos que um negro, muçulmano, nascido fora dos Estados Unidos fosse presidente. E não é impossível que uma mulher, uma seringueira, uma amazônica venha a ser presidente do Brasil.

PP – Numa entrevista ao Pasquim 21, em 2002, o senhor defendeu a construção de um novo paradigma socialista. A Alba de Chávez e seu “socialismo do século 21” representam o modelo que o senhor esperava?

LB – Quando falo em socialismo, não penso em nenhum modelo concreto hoje existente. Para mim, socialismo é a radicalização da democracia, quer dizer, viver uma democracia sem fim como a formulou o grande sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. Uma democracia que deve ser vivida em todas as relações, seja entre as pessoas, nas famílias, nas escolas, nas fábricas e na organização do Estado. Essa democracia significa participação irrestrita de todos na construção comum do bem comum.

PP – A Igreja da Libertação tem contribuído com a construção de um novo modelo socialista?

LB – A Igreja da Libertação teve como guia Paulo Freire, um dos fundadores da Teologia da Libertação. Esta, mais que tudo, implica uma pedagogia de como trabalhar com os pobres, a partir dos pobres e contra a pobreza. O ideal sempre sustentado pela Teologia da Libertação é a de uma democracia que vem de baixo, inclusiva e por isso social. Mas nunca tomou como referência nenhum ensaio socialista, muito menos aquele arremedo de socialismo vivido no Leste Europeu, que outra coisa não era que a ditadura do Estado e do partido.

PP – As CEBs estão se transformando em comunidades ecológicas e ecumênicas de base?

LB – As CEBs nasceram ecumênicas, porque na base as várias igrejas se encontram e juntas têm como referência não tanto doutrinas e dogmas mas a leitura comunitária do Evangelho, sempre confrontado com a vida de onde se tiram decisões práticas para a comunidade. Hoje elas despertaram para a questão ecológica. Isso pôde ser verificado no 12º Encontro Intereclesial das CEBs, em Porto Velho (RO), na segunda quinzena de julho. Estavam presentes cerca de três mil representantes de todas as comunidades. Discutiram por quatro dias o tema que foi objeto de estudo por três anos: “Do ventre da Terra, o grito que vem da Amazônia”. Na conclusão final, decidiram ler a sigla CEBs não apenas como eclesiais de base mas como também ecológicas de base. O documento final assume a categoria “florestania”, inventada no Acre para expressar uma cidadania vivida em convivência e em respeito para com a floresta.

PP – Se houvesse um conclave hoje, haveria espaço para a eleição de um pontífice progressista?

LB – Percebo um grande estresse na Igreja Católica universal. São já muitos anos de imposição de um modelo de igreja de cima para baixo, autoritário, sem diálogo com as demais religiões e igrejas e em confronto com o mundo moderno. Isso é um atraso atroz face àquilo que o Concilio Vaticano II (1962-1965) havia conquistado, fazendo um acerto de contas positivo da presença da Igreja dentro do mundo moderno e escutando as angústias e as esperanças da humanidade sofredora. Creio que qualquer papa que vier, que rompa esta linha dura, será um progressista. Há espaço para mudanças até para salvar a credibilidade, que é pouca, da Igreja Católica e para que ela se associe aos outros que também buscam a espiritualidade e se preocupam pelo destino comum da Terra e da humanidade.

PP – Sob Ratzinger, a Igreja ainda tem carisma e poder?

LB – Lamentavelmente, sob o papa Ratzinger predomina avassaladoramente o poder, contra o sentido do Evangelho, e afogando praticamente todas as manifestações do carisma. Este foi enviado ao limbo ou se encontra à margem da instituição. Mas o Espírito sempre suscita carismáticos que denunciam as injustiças neste mundo (tão diferentes dos atuais “carismáticos” que mais dançam e cantam do que se preocupam com os direitos dos pobres e da mãe Terra) e anunciam um outro mundo possível onde os bens do Reino podem ser melhor antecipados. Os papas passam, especialmente os conservadores, aqueles que não sabem ler os sinais dos tempos e não escutam o clamor que vem da Terra. Mas membros da Igreja, especialmente nas igrejas periféricas na Ásia, África e América Latina, salvam a Igreja do cinismo e mantêm viva a chama do carisma de Jesus e dos apóstolos.

*Primeira Página é o jornal laboratorial do curso de Jornalismo da Univás. A entrevista acima foi publicada na edição de agosto do PP, após a qual foi liberada a veiculação neste blog.

Foto: Éverton de Assis

Fórum de Segurança discutirá ‘tolerância zero’ em Santa Rita

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

A adoção de uma política de ‘tolerância zero’ é um dos temas a serem discutidos no 1º Fórum de Segurança Pública de Santa Rita do Sapucaí, que deve acontecer em outubro. As condições da cadeia da cidade também serão debatidas. A data do fórum será definida em função da agenda do secretário estadual de Defesa Social, Maurício Campos Júnior, cuja presença é aguardada pelos organizadores do evento. Também foram convidados o subsecretário de Administração Prisional, Genilson Ribeiro Zeferino, e o deputado Dalmo Ribeiro Silva (PSDB).

O fórum vem sendo planejado por um grupo de instituições santa-ritenses. A comissão organizadora do debate reúne representantes do Conselho Comunitário de Segurança Pública (Consep), da Cooperativa Regional Agropecuária de Santa Rita do Sapucaí (CooperRita), do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) e do Sindicato dos Produtores Rurais do município. A iniciativa é apoiada por órgãos de segurança pública, pela Associação Comercial e Empresarial do Vale da Eletrônica (Acevale) e pela Loja Maçônica Caridade Sul-Mineira.

O vice-presidente do Consep, Giácomo Henrique Costanti, participa da organização do fórum, no qual pretende defender a tolerância zero. Essa expressão, segundo Costanti, não significa truculência policial, e sim punições exemplares aos criminosos. Ele ressalta que a legislação penal brasileira deve ser respeitada. “A lei permite que o menor infrator fique detido por até 45 dias. Então, que o Judiciário mantenha os 45 dias, use o máximo que a lei permite para que o infrator não tenha uma sensação de impunidade”, exemplifica.

O subcomandante da Polícia Militar em Santa Rita, segundo-tenente Maximiliano Silva Soares, afirma que a PM já adota a tolerância zero em suas ações. Tenente Soares espera que outros órgãos assumam a mesma postura. “É preciso que outras instituições e autoridades se envolvam nesse processo e atuem da mesma forma que as polícias têm atuado”, sugere. O subcomandante diz que o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani “tinha razão” ao criar a primeira experiência de tolerância zero – política que reduziu em 44% a criminalidade na maior cidade norte-americana, de 1994 a 2002.

Outras propostas – Segundo Giácomo Costanti, as deficiências da cadeia de Santa Rita terão prioridade nas discussões do 1º Fórum de Segurança. “Ao resolver o problema da insegurança da cadeia, cremos que 80% dos nossos problemas com segurança estariam resolvidos”, comenta. O Consep propõe que a unidade prisional seja reformada ou desativada. O comando da PM e o conselho defendem que a cadeia passe a ser gerida pela Subsecretaria de Administração Prisional (Suapi), que aumentaria o número de agentes penitenciários.

O Consep levará ao fórum ideias colhidas em reuniões com entidades e prestará contas de suas atividades. Entre as propostas do conselho estão a implantação de um centro de ressocialização de menores, a criação do patrulhamento rural, novos horários de funcionamento de bares, melhoria da iluminação pública, instalação de câmeras de vigilância e construção de portais em seis saídas da cidade.

Comissão de deputados visitará cadeia santa-ritense

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Deputados da Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa visitarão a cadeia de Santa Rita do Sapucaí na próxima terça-feira, 22. A chegada dos parlamentares está programada para as 10h15. A comissão irá averiguar o estado da estrutura física da unidade e as condições de trabalho de seus servidores. Fugas frequentes, instalações precárias e recursos humanos insuficientes estão entre os principais problemas da cadeia.

A visita foi sugerida à Comissão de Segurança pelo deputado Sargento Rodrigues (PDT). O requerimento do pedetista foi aprovado pelo colegiado no dia 14 de julho, após duas fugas e apreensão de celulares no início daquele mês. A comissão aprovou também a realização de uma audiência pública na Câmara Municipal de Pouso Alegre, que ocorrerá no dia 22, logo após a visita à cadeia de Santa Rita.

Três membros da comissão confirmaram presença nos dois eventos: o presidente João Leite (PSDB), a vice-presidente Maria Tereza Lara (PT) e Rômulo Veneroso (PV). Também devem participar dos trabalhos os deputados Dalmo Ribeiro Silva (PSDB), Ruy Muniz (DEM) e Sargento Rodrigues.

De acordo com a assessora legislativa Daniela Duarte Ferreira de Oliveira, a visita à cadeia poderá provocar medidas de órgãos governamentais. “A Assembleia não tem poder de polícia, mas pode fiscalizar e solicitar providências”, explica Oliveira. A assessora comenta que as condições da cadeia serão detalhadas num relatório a ser apreciado pela Comissão de Segurança.

Delegado Campos volta a atuar em Santa Rita

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

A Delegacia de Polícia de Santa Rita do Sapucaí conta com novos profissionais desde a última terça-feira, 15. Dernival Campos da Cruz, que já comandou a DP de 1999 a 2003, foi nomeado pela Procuradoria-Geral de Polícia para atuar novamente na cidade, desta vez como delegado cooperador. Além de Campos, foram designados mais dois delegados, dois escrivães e quatro agentes policiais. O reforço temporário se destina a agilizar os trabalhos burocráticos e intensificar o combate à criminalidade no município.

Em seu primeiro dia de trabalho na nova função, Campos participou de uma operação de desarmamento realizada por policiais militares e civis nas duas entradas da cidade. Segundo o delegado cooperador, as duas forças de segurança abordaram mais de 100 condutores de veículos, mas nenhuma apreensão ocorreu.

Entrevistado pela Rádio Difusora Santarritense na última semana, Campos expôs sua preocupação com o estado atual da cadeia pública do município. Ele espera que a unidade seja reformada e passe a ser controlada pela Subsecretaria de Administração Prisional (Suapi).

Poluição sobre rodas


O governo federal deu um passo importante na trilha do consumo consciente na semana passada. O Ministério do Meio Ambiente divulgou uma lista de veículos classificados de acordo com a emissão de gases poluentes. Figuram no ranking, por enquanto, somente os carros de passeio fabricados no Brasil em 2008. A classificação foi feita com base em dois critérios: a nota verde (índice de emissão de monóxido de carbono, hidrocarbonetos e óxidos de nitrogênio) e o indicador de CO2 (gás carbônico).

A pesquisa apresenta informações curiosas. Quatro dos cinco modelos com pior nota verde são movidos a álcool. Na outra ponta, os cinco menos poluentes são carros a gasolina. Os motores flex produzem mais monóxido de carbono quando se usa álcool combustível. Uma das explicações para esse resultado seria o fato de o motor flex ser mais adequado à gasolina do que ao etanol.

Embora o álcool seja conhecido como ‘combustível limpo’ no Brasil, seu sucesso no país não se deve à preocupação dos motoristas com o meio ambiente. O que tem atraído o consumidor é tão-somente o preço. O fator econômico foi o que motivou o Estado brasileiro a incentivar o combustível derivado da cana-de-açúcar. Na década de 1970, a ditadura militar criou o Programa Nacional do Álcool (ProÁlcool) para evitar que as variações de preço do petróleo prejudicassem a economia nacional.

O ranking do MMA é uma tentativa de reduzir os prejuízos ambientais de uma medida tomada pelo próprio governo: a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para estimular a venda de veículos. A pretexto de tirar o Brasil da crise financeira mundial, o Estado contribuiu para agravar a crise climática planetária.

O ministro Carlos Minc faz sua parte para incentivar um consumo ecologicamente correto. Agora é a vez do cidadão brasileiro e – por que não? – do presidente Lula se mostrarem sensíveis ao apelo da agonizante Terra. O consumidor pode escolher um carro menos poluente da mesma forma que opta por uma geladeira econômica. Já o presidente tem condições de baixar impostos sobre veículos de transporte coletivo movidos a gás natural.

11 de set de 2009

Dirigente do Sindvel defende reajuste na ‘média do mercado’

[Entrevista a Jonas Costa publicada na Gazeta do Vale]

O empresário Gustavo Bueno Borges representa a classe patronal na negociação salarial com o Sindicato dos Trabalhadores de Santa Rita do Sapucaí, Conceição dos Ouros e Cachoeira de Minas (Sindmetsrs). Borges integra a diretoria do Sindicato das Indústrias do Vale da Eletrônica (Sindvel) e recebeu a reportagem na última semana para expor a posição dos empresários sobre o acordo coletivo de trabalho que vem sendo discutido desde agosto. A negociação deve ser encerrada até o final deste mês.

Borges evitou comentar os percentuais de reajuste salarial propostos pelo Sindmetsrs – 16% ou 38,92%, conforme a quantidade de funcionários da empresa. O dirigente do Sindvel limitou-se a dizer que o aumento dos vencimentos deve se basear na “média do mercado”. “As empresas de Santa Rita têm que aceitar, no máximo, a média do mercado, a média de todas as outras regiões para que o produto [do Vale da Eletrônica] não deixe de ser competitivo dado a um reajuste muito alto. Tem que ser feito um reajuste justo para a situação do mercado atual”, ponderou.

Ao contrário da presidente do Sindmetsrs, Maria Rosângela Lopes, o empresário avalia que a crise econômica mundial deve influenciar o resultado da negociação salarial. “Todos os setores de Santa Rita foram afetados. Alguns usaram de artifícios para sair da crise, mudaram um pouco a forma de trabalho. E há alguns que foram muito prejudicados e que temos notícias que não estão tendo dinheiro nem para pagar impostos nesta época de crise”, argumentou.

Gustavo Borges comentou outra declaração recente de Rosângela Lopes, segundo a qual a lucratividade das empresas eletro-eletrônicas de Santa Rita é alta, mas não repercute em aumento de renda para os trabalhadores. “Há muitas empresas com poucos funcionários e faturamento muito alto, assim como há grandes empresas com muitos funcionários e faturamento na média. Cada uma tem seu ramo. Creio que as empresas com maior lucratividade são aquelas que hoje possuem maior tecnologia”.

O diretor do Sindvel falou também de um item das cláusulas sociais do acordo coletivo que, segundo o Sindmetsrs, tem sido ignorado pelo empresariado: criação de creches para filhos de operários. De acordo com Borges, a classe patronal espera que as creches municipais sejam ampliadas pela Prefeitura – comandada atualmente pelo empresário Paulo Cândido da Silva (PV), ex-presidente do Sindvel. “Creche é um assunto meio crítico para uma empresa, dependendo do seu porte, ter responsabilidade de criar, haja vista os vários casos de morte de crianças em creches não preparadas para atendê-las”, opinou Borges.

Foto: Jonas Costa

Exposição inédita em Santa Rita provoca diferentes sensações


[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Quem visitou o Museu Delfim Moreira nos 11 primeiros dias de setembro teve a oportunidade de participar de uma experiência inédita em Santa Rita do Sapucaí: uma exposição sensorial. Na entrada do prédio, um aviso em braille e letras grandes anunciava que aquela era uma mostra especial, voltada principalmente aos deficientes visuais. “O toque às obras é permitido”, dizia o aviso.

Poucos passos eram necessários para que o visitante se deparasse com a primeira obra de Nadja Costa de Souza, criadora da exposição. O grande girassol nem parecia plano e preso a uma moldura. No miolo da flor, centenas de sementes foram cuidadosamente coladas pela artista. Na sala à direita, foram colocados outros cinco quadros, confeccionados com papel machê e papelão.

As pessoas desprovidas de visão encontraram ao lado de cada peça uma ficha técnica em braille. Aqueles que não possuem deficiência visual podiam apreciar as obras vendados. Foi o que fez a professora Terezinha de Jesus Carvalho Souza, 75. “Quem tem tudo funcionando não dá valor. Só valorizamos aquilo que perdemos. A exposição foi uma oportunidade para pensarmos nos deficientes visuais”, comenta a professora.

Terezinha não foi sozinha à mostra ‘Sensações’. Levou consigo alguns alunos da Associação Pró-Desenvolvimento Através da Arte (Prodarte), da qual é fundadora. Os jovens conheceram obras incomuns, como o quadro em que Nadja retrata o Sítio do Mufumbo, localizado na Paraíba. A paisagem rural foi construída pela artista a partir das lembranças de sua amiga Salete, que perdeu a visão aos cinco anos.

Em outra sala, Nadja montou a instalação ‘Coisas do cotidiano’. O que é considerado comum pelas pessoas tidas como normais foi apresentado de forma bastante criativa pela artista. Frutas, flores e insetos estimulavam a percepção tátil, olfativa, auditiva e gustativa. Podia-se sentir o aroma e a textura de uma pera, uma maçã e uma laranja confeccionas por Nadja em tamanho de melancia. Formigas e borboletas também foram ampliadas.

O que mais chamou a atenção do músico Jovani Ribeiro, 48, foi a colmeia instalada no canto da sala, com aroma, som de abelhas e mel para degustação. Portador de deficiência visual desde o nascimento, ele se diz impressionado com as obras que exalavam essências, como o quadro ‘Bananeira’. “Foi uma experiência muito interessante. A impressão que eu tive é que tinha abelha lá dentro. Ficou um clima de colmeia mesmo. Fui criado na roça, mas o deficiente urbanizado nunca chega perto de uma bananeira ou de um pé de laranja”, diz.

Jovani Ribeiro e Terezinha Souza voltaram ao museu para o encerramento da exposição ‘Sensações’, quando participaram de apresentações musicais ao lado de alunos da Prodarte. O zumbido das abelhas e o ruído produzido pelo atrito do vento com as flores de papel machê e garrafa pet deram lugar ao som da flauta doce, do saxofone e do violão.

Foto: Arquivo Museu

Vicentinos promovem encontro regional em Santa Rita

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

A Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) pretende reunir duas mil pessoas em Santa Rita do Sapucaí neste domingo, 13. O motivo é a 9ª edição do Encontrão Vicentino, evento que acontece uma vez ao ano no Sul de Minas. É a primeira vez que Santa Rita sedia a reunião religiosa. O tema de 2009 é ‘A caridade como força de evangelização’.

O Encontrão é promovido pelo Conselho Metropolitano de Pouso Alegre, que congrega os conselhos centrais de Alfenas, Bom Pastor (Varginha), Boa Esperança, Guaxupé, Itajubá, Poços de Caldas, Pouso Alegre, Santa Rita do Sapucaí, Três Corações e Varginha. Cada conselho central é dividido em conselhos particulares e conferências.

De acordo com o presidente do Conselho Central de Santa Rita, José Donizete Rufino Marins, o Encontrão serve para aproximar os vicentinos sul-mineiros, que passam a conhecer melhor a atuação da entidade na região. Marins diz que outro objetivo da reunião é apresentar a SSVP àqueles que ainda não são seus membros. Por isso, qualquer pessoa pode participar do evento, sem custo algum.

A edição deste ano será realizada no Ginásio Poliesportivo Municipal Dr. José Alcides Rennó Mendes (Alcidão), a partir das 8h. Haverá palestras com os temas ‘A caridade como força de evangelização’ e ‘Espiritualidade de São Vicente’. A programação do encontro inclui apresentações musicais, coreografias, orações, dinâmica de grupo, sorteio de brindes e exibição de um clipe do músico Gabriel, o Pensador. A missa de encerramento terá início às 14h30.

Os vicentinos prestam auxílio social e espiritual a pobres e enfermos. A SSVP doa alimentos, roupas e medicamentos mediante uma avaliação socioeconômica dos solicitantes. Donizete Marins afirma que a maior preocupação da entidade é com a promoção do ser humano. “Procuramos promover as famílias. Promover é dar dignidade, dar força espiritual, mostrar o caminho de Deus para a pessoa assistida. A parte espiritual é um auxílio para a pessoa caminhar com as próprias pernas”, compara o dirigente vicentino.

Independência ou morte

Pré-sal é a nova menina dos olhos do presidente Lula. “É a segunda independência do Brasil”, vaticinou o estadista, não às margens plácidas do Ipiranga, mas a respeito das descobertas da Petrobras 7 quilômetros abaixo do leito do mar. Lula não está deslumbrado à toa. A camada pré-sal tem 800 quilômetros de extensão e suas reservas seriam de 100 bilhões de barris de petróleo, segundo cálculos da estatal responsável pelo setor. Esses números seriam capazes de introduzir o país no rol dos dez maiores produtores do mundo.

O tema foi objeto de discurso presidencial em cadeia de rádio e TV, no dia 6 de setembro. Em sua página no Twitter, o jornalista Jota Geraldo, de Paraisópolis, assim comentou o pronunciamento: “Enquanto Lula discursava na televisão sobre o pré-sal, o mendigo assistia tudo debaixo do cobertor puído e pensava se era algo de comer”. A cena sugerida pelo autor desta frase resume a distância que há entre os dados sobre o pré-sal e a realidade daqueles que os viam pelo televisor.

Crítica parecida à de Jota Geraldo foi feita pelo cartunista Théo, numa edição da revista Careta, em 1960. Com o título ‘Meta de faminto’, a célebre charge ironiza o Plano de Metas adotado pelo então presidente, Juscelino Kubitschek. “Você agora tem automóvel brasileiro, para correr em estradas pavimentadas com asfalto brasileiro, com gasolina brasileira. Que mais quer?”, indaga JK. Ao que o personagem Jeca responde: “Um prato de feijão brasileiro, seu doutô!”

O mendigo tem mais sorte do que o Jeca. Isso porque Lula tem uma preocupação que faltava a JK: transformar desenvolvimento econômico em melhoria de vida para os pobres. A intenção do governo é investir os recursos oriundos do pré-sal nas áreas de educação, cultura, meio ambiente, ciência, tecnologia e combate à miséria.

O Brasil de Lula é menos desigual do que aquele deixado por Juscelino. Mas não basta distribuir renda. Há que se observar, além do pobre, o ambiente que este divide com o rico, o animal, a árvore. O pré-sal só representará uma nova independência se o Estado libertar o país do petróleo através de investimentos em energia limpa. Isso significa reservar recursos para os dias em que o planeta não mais terá seu 'ouro negro'.

7 de set de 2009

Movimento pelo recomeço

Comecei a militar no Partido dos Trabalhadores antes de completar 16 anos. Dois livros foram determinantes para essa opção política: Lula – Entrevistas e Discursos, organizado pelo Diretório Nacional do PT, e Diário da Salvação do Mundo, de Fernando Gabeira. Outra leitura importante desse período foi um caderno lançado pelo Governo do Distrito Federal sobre a Bolsa-Escola, instituída durante a gestão de Cristovam Buarque.

A primeira edição do Processo de Eleições Diretas (PED), em 2001, descortinou para mim um partido democrático e seus próceres respeitáveis. Um dos petistas que logo ganharam minha admiração foi Tilden Santiago, candidato à presidência do PT em 2001 e ao Senado um ano depois.

Com Gabeira, a identificação ideológica também foi rápida. Por sua causa, passei a acompanhar com atenção a política do Rio, onde o PT era representado no início desta década por grandes homens de esquerda, como Chico Alencar, Milton Temer e Luiz Eduardo Soares. Além de Gabeira, apoiaram a candidatura Lula-2002 inúmeros intelectuais, entre os quais Plínio de Arruda Sampaio, Hélio Bicudo, Chico de Oliveira e César Benjamin.

Sou um dos 52 milhões de responsáveis pela primeira vitória presidencial de Lula. A onda vermelha varreu o país inteiro, do Acre de Marina Silva ao Rio Grande de Luciana Genro, incluindo o Paraná de Flávio Arns, o Pará de Edmilson Rodrigues e as Alagoas de Heloísa Helena.

O leitor atento já notou que há algo estranho neste texto. À exceção de Lula, os outros 15 políticos citados acima deixaram o PT nos últimos sete anos. Gabeira e Marina migraram para o PV. Tilden caminhou para o PSB, Cristovam para o PDT, Soares para o PPS. Bicudo e Arns, salvo engano, estão sem partido. Os outros oito que mencionei lideraram a criação do PSOL ou a ele aderiram pouco tempo depois.

Não há nada de estranho em meu texto. Existe, sim, algo errado com meu partido, o PT. Não pretendo listar aqui os insucessos do governo Lula – gestão democrática e popular responsável por inúmeros avanços nos campos social, econômico, cultural e ambiental. Lula faz uma elogiável administração, mas certamente não agrada aos 15 dissidentes que relacionei. Errar e contrariar expectativas são naturais quando se governa um país complexo com o apoio de uma coalizão heterogênea.

Não me sinto preparado para avaliar as falhas do grande presidente Lula, até porque seu trabalho ainda não foi concluído. Quero abordar aqui o papel da direção partidária em tempos de desidratação do PT.

É inegável que a ascensão de Lula ao poder central deve muito às mudanças por que passou o partido sob a liderança de José Dirceu. Por outro lado, o grupo capitaneado pelo ex-ministro (dentro do PT e da máquina federal) contribuiu decisivamente para a perda de companheiros descontentes. As expulsões de 2003 e a crise política de 2005 são os “melhores” exemplos.

O suposto mensalão – acusação de corrupção sistêmica e contínua no governo Lula, da qual discordo – deve ser analisado cuidadosamente pela Justiça. Mas cabe aos dirigentes do PT promover ampla autocrítica, sério debate interno e, quem sabe, a decantada refundação ética.

Outra tarefa que compete à direção nacional é a de preservar a criticidade do partido, que não deve se tornar mero apêndice do governo. Uma legenda que cresceu de baixo para cima não pode ser conduzida no sentido inverso. Os dirigentes petistas precisam dialogar mais com a militância, reativar os núcleos de base, transigir com opiniões divergentes.

O PT pós-2010 terá grandes desafios, ainda mais se a ministra Dilma Rousseff vencer a corrida presidencial. Pela primeira vez desde 1989, o partido não será representado na eleição por seu maior líder.

Novos tempos exigem nova direção, com novas metas e novos conceitos. A tendência Movimento PT está preparada para liderar os petistas nos próximos anos. O MPT entende que um novo paradigma, o ecossocialismo, deve ser construído por meio do diálogo com as bases, os movimentos sociais e os pobres.

No PED deste ano, o primeiro em que votarei, apóio o candidato Geraldo Magela, do Movimento, para a presidência nacional. Quero iniciar minha participação colaborando com o “recomeço” do PT.

4 de set de 2009

Maioria da Câmara apoia restrição ao uso de capacete

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Seis dos nove vereadores de Santa Rita do Sapucaí declaram-se favoráveis ao projeto de lei que disciplina o uso de capacetes por motociclistas no município. A restrição inclui também gorros e qualquer outro tipo de vestimenta que cubra o rosto do condutor quando seu veículo estiver parado. O blog ouviu o autor da proposição, vereador João Paulo Sampaio (PDT), e outros cinco parlamentares. Os outros três não foram encontrados pela reportagem: Domásio Roque da Fonseca (PDT), Sebastião Cláudio da Silveira (PR) e Vagner Fernandes Mendes (PR).

O texto do projeto de lei é apoiado, sem ressalvas, por quatro vereadores: Clarismon Inácio (PSDB), Hudson dos Reis Carvalho Pinto (PV), João Batista Rezende (PSB) e Waldecir Maciel Januário (PDT). O presidente da Câmara Municipal, Magno Magalhães Pinto (PT), só votará se houver empate, mas pretende apresentar uma emenda para que a proibição fique “mais clara”. A alteração seria feita no artigo 1º, no trecho que trata da aplicação da restrição àqueles que “estiverem em movimento ou prestes a entrar em movimento”. Para o petista, é necessário definir com mais precisão a segunda situação.

João Paulo Sampaio protocolou o projeto de lei depois de ouvir sugestões de comerciantes que já foram vitimados por assaltantes que empregam motocicletas em suas ações. Se for aprovado pela Câmara e sancionado pelo prefeito, o documento possibilitará punições a motociclistas e ‘caronas’ que cobrirem o rosto em vias públicas, estabelecimentos públicos e privados. A multa para a primeira infração será de duas unidades fiscais municipais (R$ 152,08). Em caso de reincidência, o valor será dobrado: R$ 304,16, que equivalem a qatro UFMs.

A proposição de Sampaio foi elogiada na sessão da Câmara de 1º de setembro pelo novo comandante da Polícia Militar em Santa Rita, primeiro-tenente Júlio César de Campos Silva. Questionado pelo vereador Clarismon Inácio se há possibilidade de proibir o uso de capacetes no município, o comandante alertou que a ideia contraria o Código de Trânsito Brasileiro (lei federal 9503/1997), sendo, portanto, inconstitucional. Campos Silva salientou que a restrição pode inibir assaltos e facilitar a identificação de criminosos.

O motoboy Diego Inácio da Silva aprova o projeto de lei de Sampaio. Silva faz entregas para um depósito de gás e acredita que haverá queda no número de roubos a mão armada na cidade. Já Marcelo Palma, gerente de um posto de combustível frequentemente assaltado, comenta que “a lei ajuda, mas ainda não é a solução”. Ele é favorável à proibição do uso de capacete na cidade, já que o equipamento de segurança “está servindo de disfarce”.

‘Rota do entulho’ incomoda moradores do Jardim das Palmeiras

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Um depósito de entulho da Prefeitura de Santa Rita do Sapucaí tem causado transtornos a moradores da rua Professora Irene Castelo de Carvalho Pereira, no bairro Jardim das Palmeiras. A via pública dá acesso à área em que os detritos são despejados e, por isso, o tráfego de caminhões da frota municipal é constante no local. Poeira, barro, incêndios, animais e danos à pavimentação são alvos de reclamações na região.

Cidadãos ouvidos pelo blog dizem que o fluxo de caminhões se intensificou após o calçamento da rua, executado em 2008 com recursos dos moradores. Os entrevistados alegam que a rua passou a ter uma série de problemas desde que se tornou uma ‘rota do entulho’. No rastro dos caminhões, começaram a aparecer veículos particulares descarregando lixo residencial. Cobras e ratos passaram a ser vistos nas casas. Lama e barro voltaram a fazer parte dos problemas da rua.

Segundo o aposentado Vicente Antônio Mate Veraldi, 61, caminhões sempre derrubam entulho pela rua. Após uma dessas ocorrências, Veraldi procurou a Prefeitura para registrar uma reclamação. Ele afirma que o material foi recolhido no dia da denúncia, mas o problema se repetiu outras vezes, sem providência alguma da Prefeitura.

A nutricionista Mariana Carvalheiro Cotrim Lima, 30, levou à Secretaria Obras outra queixa: a falta de limpeza e muros em terrenos particulares próximos à sua residência, onde duas cobras peçonhentas já foram encontradas. A moradora diz ter sido informada de que os proprietários dos lotes seriam notificados e, se não houvesse resposta em 10 dias, a Prefeitura custearia o serviço. O problema ainda não foi solucionado.

A nutricionista critica também a falta de fiscalização na unidade de recebimento de entulho, o que facilita o despejo de materiais inadequados. A reportagem visitou o depósito de entulho na tarde de segunda-feira, 31, e flagrou dois homens descartando quatro sacos de lixo residencial e uma casinha de cachorro.

Outra preocupação dos moradores é a contribuição da poeira e da queima de lixo na evolução de doenças respiratórias. O desempregado Antônio Marcos de Lima, 36, relata que sua esposa sofre de tosse alérgica há três meses. O aposentado José Aparecido de Souza, 59, teme pela saúde de sua nora, grávida, e da neta que nascerá em breve. Ambas irão residir na mesma rua.

Lotes com água parada e ausência de garis também incomodam os habitantes da região. Para Vicente Veraldi, essas deficiências demonstram que o governo do Partido Verde não prioriza a qualidade de vida das pessoas. “Mereceríamos um pouco mais de respeito e atenção. Fazer frases nas paredes é muito bonito. Agora, agir como o partido determina, ninguém age”, critica.

Outro lado - O secretário municipal de Obras, Marcos Antônio Salvador de Barros, afirma que a unidade de recebimento de entulho é provisória e será desativada quando forem iniciadas as obras do centro de eventos no local. Segundo ele, parte do material despejado pela Prefeitura está sendo usado para aterrar o espaço.

Salvador de Barros diz que um servidor público será designado para administrar o depósito de entulho, que receberá apenas restos de construção civil, móveis velhos e galhos de árvores. Ele assegura que os detritos inadequados serão encaminhados ao lixão da cidade. O secretário sustenta que não há áreas públicas disponíveis na zona rural para receber entulho, embora uma parcela dos resíduos seja despejada em estradas de terra.

O titular da pasta de Obras diz que o tráfego de caminhões não será interrompido na rua Professora Irene Castelo de Carvalho Pereira. “Infelizmente, o trânsito de caminhões ali vai continuar e, chegando os caminhões novos, vai aumentar um pouquinho”. Ele explica que o fluxo crescerá para que o aterro seja concluído rapidamente.

O secretário afirma que os proprietários de lotes abandonados já foram notificados e que a limpeza pública será aperfeiçoada na região. Já o alagamento de terrenos, diz ele, só será reduzido com a construção de galerias para águas pluviais.

Foto: Jonas Costa

Novo comandante da PM quer participação da comunidade

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Trabalhar em parceria com a comunidade é uma das metas do recém-empossado comandante da 114ª Companhia de Polícia Militar, primeiro-tenente Júlio César de Campos Silva. Para o oficial, a população santa-ritense colabora pouco com a PM por meio de denúncias. O novo comandante diz que a participação popular é imprescindível para que o Vale da Eletrônica deixe de ser o município mais violento do Sul de Minas, como constatou a própria polícia em levantamento divulgado em julho.

Campos Silva, 32, assumiu o posto no dia 25 de agosto no lugar do capitão Mário Jorge Sandy, que passou a atuar em Pouso Alegre na Assessoria de Comunicação Organizacional da PM. A companhia tem, ainda, um novo subcomandante: o segundo-tenente Maximiliano Silva Soares. O segundo-tenente Valdeci Moreira foi mantido em Santa Rita e agora responde pelos destacamentos de Cachoeira de Minas, Conceição dos Ouros e São Sebastião da Bela Vista.

Em entrevista a este blog na última segunda-feira, 31, o comandante declarou que a informação é a melhor forma de prevenção à criminalidade. O tenente Campos Silva comentou que todo cidadão tem o direito de informar a polícia sob a condição de anonimato. Ele disse acreditar que a baixa participação da comunidade se deve, principalmente, ao medo de represálias e à dificuldade de perceber “atitudes suspeitas”. Para facilitar a identificação de criminosos e estimular denúncias anônimas, o novo comando planeja realizar palestras sobre medidas de autoproteção.

Segundo informações obtidas pelo tenente Campos Silva, a PM recebe, com frequência, ligações telefônicas após a ocorrência de crimes que poderiam ser evitados. “Estamos aqui para evitar o crime. Depois que ele acontece, o aparato policial que se gasta é muito maior. Então, nossa intenção é tentar evitar que ocorra e, quando ocorrer, vamos trabalhar para solucionar esses delitos”, afirma. O novo comandante da 114ª Companhia pretende estabelecer uma relação de parceria com os comerciantes santa-ritenses, especialmente nas áreas em que há maior incidência de assaltos.

O tenente acredita que o tráfico de entorpecentes é responsável por grande parte dos homicídios, roubos a mão armada e furtos registrados em Santa Rita. “Ou o usuário de drogas se envolve numa dívida e acontece algum tipo de represália nesse sentido, ou assalta para poder adquirir a droga”, exemplifica. Campos Silva, que já comandou a PM em São Gonçalo do Sapucaí e Monte Sião, percebe que crimes relacionados a drogas ilícitas têm crescido em pequenos municípios sul-mineiros.

O comandante citou outra preocupação dos órgãos de segurança de Santa Rita: a “estrutura defasada” da cadeia pública. Ele afirmou que irá discutir com os delegados da Polícia Civil a melhor forma de a PM colaborar com a prevenção às fugas, que têm sido constantes. O tenente entende que não basta reformar a unidade prisional, a qual, em sua visão, deveria ser administrada pela Subsecretaria de Administração Penitenciária (Suape).

Foto: Cíntia Ferreira

Antiga Moore Formulários fecha as portas em SRS

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

A empresa RR Donnelley Moore Editora e Gráfica iniciou na semana passada a desativação de sua unidade em Santa Rita do Sapucaí. O anúncio foi feito na tarde de 26 de agosto, no refeitório da indústria. A antiga Moore Formulários empregava 135 profissionais e funcionava no Vale da Eletrônica desde março de 1983.

O impressor Amauri Francisco Roberto é um dos prejudicados pela demissão em massa. Há 13 anos na empresa, ele começou a ouvir boatos sobre o fechamento 20 dias antes da comunicação oficial. “Eu já estava preparado para isso. Havia um comentário na ‘rádio peão’, mas a chefia não confirmava nada, falava que não sabia”, revela.

Carlos César Reis de Azevedo também desempenhava a função de impressor na RR Donnelley. Sua contratação completaria nove anos nesta sexta-feira, 4. A desativação imediata da seção em que trabalhava o deixou chocado. “É uma coisa que mexe com a gente. Eles [diretores] não tinham a necessidade de agir como agiram”.

O advogado Rogério Toledo Rennó, que era prefeito quando a Moore Formulários foi inaugurada, relata que a empresa foi responsável pela maior parte do Imposto Sobre Serviços (ISS) recolhido em Santa Rita no início da década de 1980. “O ISS pago pela Moore dava para pagar toda a despesa da Prefeitura com folha de pagamentos. E ainda sobrava”, conta o ex-prefeito.

Rogério Rennó considera que o fechamento da RR Donnelley se deve à “falta de competência do Executivo Municipal”. O secretário municipal de Ciência, Tecnologia, Indústria e Comércio, Pedro Sérgio Monti, diz que a Prefeitura não recebeu comunicado algum da empresa. Monti afirma que a administração municipal irá buscar novos empreendimentos para evitar que o prédio industrial fique ocioso.

A reportagem procurou, por telefone, a assessoria de comunicação da RR Donnelley, mas não obteve informações sobre as razões da desativação.

Mordaça digital

Avança no Senado Federal uma proposta incompatível com a liberdade de expressão restaurada pela Carta cidadã de 1988. Duas comissões da Casa – a de Constituição e Justiça e a de Ciência e Tecnologia – aprovaram modificações na legislação eleitoral que, entre outras coisas, proibiriam os sites de se manifestarem sobre candidaturas. Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e Marco Maciel (DEM-PE) são os relatores da proposta no Senado e defensores do ‘AI-5 digital’.

A mordaça não é apenas inaceitável, mas, sobretudo, inútil. Controlar o conteúdo da internet é tão impossível quanto impedir o sol de brilhar durante o dia. Por mais que a legislação estabeleça limites e penalidades, a rede mundial de computadores não deixará de ser um território livre. Em alguns países que não experimentam o regime democrático, a internet é o único instrumento para denunciar excessos e fraudes governamentais.

Nem mesmo Cuba, governada com mão de ferro pelos comunistas há 50 anos, consegue abolir o exercício da crítica no mundo virtual. O blog ‘Generación Y’, por exemplo, rompeu a censura em vigor na ilha de Fidel Castro e alcançou fama mundial. Sua titular, a filóloga Yoani Maria Sánchez, disponibiliza postagens em 18 idiomas, do espanhol ao coreano, incluindo o tcheco, o russo e o finlandês.

Enquanto isso, no Brasil, a classe política se recusa a falar a mesma língua que o povo. Num país em que houve (ou ainda há) atos secretos, sobram políticos interessados em exterminar o que resta de transparência. Existem, por outro lado, tentativas de sabotar a imprensa por meio do ‘excesso de transparência’. O blog ‘Fatos e Dados’, criado pela Petrobras, exemplifica esse tipo de postura. A página publica as perguntas que recebe da imprensa e as respectivas respostas da estatal. A prática não é ilegal, mas quebra a confidencialidade no relacionamento entre jornalistas e fontes, além de reduzir a diversidade dos veículos de comunicação.

Felizmente, a nação ainda dispõe de homens públicos sensatos. Dois deles, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) e o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), usam a própria internet para combater o AI-5 digital. Gabeira até já escolheu uma estratégia em caso de derrota. “O caminho é a orientação de Thoreau para leis estúpidas: desobedeça”, anotou o eterno guerrilheiro no Twitter.