7 de set de 2009

Movimento pelo recomeço

Comecei a militar no Partido dos Trabalhadores antes de completar 16 anos. Dois livros foram determinantes para essa opção política: Lula – Entrevistas e Discursos, organizado pelo Diretório Nacional do PT, e Diário da Salvação do Mundo, de Fernando Gabeira. Outra leitura importante desse período foi um caderno lançado pelo Governo do Distrito Federal sobre a Bolsa-Escola, instituída durante a gestão de Cristovam Buarque.

A primeira edição do Processo de Eleições Diretas (PED), em 2001, descortinou para mim um partido democrático e seus próceres respeitáveis. Um dos petistas que logo ganharam minha admiração foi Tilden Santiago, candidato à presidência do PT em 2001 e ao Senado um ano depois.

Com Gabeira, a identificação ideológica também foi rápida. Por sua causa, passei a acompanhar com atenção a política do Rio, onde o PT era representado no início desta década por grandes homens de esquerda, como Chico Alencar, Milton Temer e Luiz Eduardo Soares. Além de Gabeira, apoiaram a candidatura Lula-2002 inúmeros intelectuais, entre os quais Plínio de Arruda Sampaio, Hélio Bicudo, Chico de Oliveira e César Benjamin.

Sou um dos 52 milhões de responsáveis pela primeira vitória presidencial de Lula. A onda vermelha varreu o país inteiro, do Acre de Marina Silva ao Rio Grande de Luciana Genro, incluindo o Paraná de Flávio Arns, o Pará de Edmilson Rodrigues e as Alagoas de Heloísa Helena.

O leitor atento já notou que há algo estranho neste texto. À exceção de Lula, os outros 15 políticos citados acima deixaram o PT nos últimos sete anos. Gabeira e Marina migraram para o PV. Tilden caminhou para o PSB, Cristovam para o PDT, Soares para o PPS. Bicudo e Arns, salvo engano, estão sem partido. Os outros oito que mencionei lideraram a criação do PSOL ou a ele aderiram pouco tempo depois.

Não há nada de estranho em meu texto. Existe, sim, algo errado com meu partido, o PT. Não pretendo listar aqui os insucessos do governo Lula – gestão democrática e popular responsável por inúmeros avanços nos campos social, econômico, cultural e ambiental. Lula faz uma elogiável administração, mas certamente não agrada aos 15 dissidentes que relacionei. Errar e contrariar expectativas são naturais quando se governa um país complexo com o apoio de uma coalizão heterogênea.

Não me sinto preparado para avaliar as falhas do grande presidente Lula, até porque seu trabalho ainda não foi concluído. Quero abordar aqui o papel da direção partidária em tempos de desidratação do PT.

É inegável que a ascensão de Lula ao poder central deve muito às mudanças por que passou o partido sob a liderança de José Dirceu. Por outro lado, o grupo capitaneado pelo ex-ministro (dentro do PT e da máquina federal) contribuiu decisivamente para a perda de companheiros descontentes. As expulsões de 2003 e a crise política de 2005 são os “melhores” exemplos.

O suposto mensalão – acusação de corrupção sistêmica e contínua no governo Lula, da qual discordo – deve ser analisado cuidadosamente pela Justiça. Mas cabe aos dirigentes do PT promover ampla autocrítica, sério debate interno e, quem sabe, a decantada refundação ética.

Outra tarefa que compete à direção nacional é a de preservar a criticidade do partido, que não deve se tornar mero apêndice do governo. Uma legenda que cresceu de baixo para cima não pode ser conduzida no sentido inverso. Os dirigentes petistas precisam dialogar mais com a militância, reativar os núcleos de base, transigir com opiniões divergentes.

O PT pós-2010 terá grandes desafios, ainda mais se a ministra Dilma Rousseff vencer a corrida presidencial. Pela primeira vez desde 1989, o partido não será representado na eleição por seu maior líder.

Novos tempos exigem nova direção, com novas metas e novos conceitos. A tendência Movimento PT está preparada para liderar os petistas nos próximos anos. O MPT entende que um novo paradigma, o ecossocialismo, deve ser construído por meio do diálogo com as bases, os movimentos sociais e os pobres.

No PED deste ano, o primeiro em que votarei, apóio o candidato Geraldo Magela, do Movimento, para a presidência nacional. Quero iniciar minha participação colaborando com o “recomeço” do PT.

3 comentários:

André disse...

Sempre bom ler seus textos. Faz uma abordagem interessante e consistente. Tem uma visão crítica, que não se deixa levar por paixões.

Patrícia Marques disse...

Olá Jonas! Como sempre, um ótimo texto. Confesso que não estou satisfeita com a política do nosso atual presidente, porém concordo com você quando diz "Errar e contrariar expectativas são naturais quando se governa um país complexo com o apoio de uma coalizão heterogênea."

Esperemos pelo recomeço...

Dessa disse...

Não sei se posso usar a palavra "decepção" para algo dito tão imprevisível como a política. Mas descontentamento e incoerências são normais quando lago sai do plano ideal.
Ótimo texto, que me fez pensar qual o verdadeiro significado de uma ideologia em um país como o nosso. Vale a pena ter? Não sei, mas hoje ainda é "dia da dependência" e acreditar piamente em algo é um vício...