21 de set de 2009

Socialismo é radicalização da democracia, diz Boff


[Entrevista a Jonas Costa publicada no Primeira Página*]

O catarinense Leonardo Boff, 70, tornou-se mundialmente conhecido na década de 1980 ao expor suas teses ligadas à Teologia da Libertação no livro “Igreja: Carisma e Poder”. A suposta leitura marxista do Evangelho e as críticas à hierarquia da Igreja de Roma lhe renderam punições decretadas pela Congregação para a Doutrina da Fé – órgão da Santa Sé dirigido à época pelo cardeal Joseph Ratzinger, hoje papa Bento XVI.

Ouvido pelo Primeira Página pouco antes de palestrar em Pouso Alegre, o teólogo e escritor explicou que a Igreja da Libertação “nunca tomou como referência nenhum ensaio socialista”. Socialismo, segundo o ex-frade franciscano, deve ser entendido como radicalização da democracia. Para Boff, a experiência comunista no Leste Europeu não passou de “ditadura do Estado e do partido”.

O teólogo da libertação discorreu também sobre a conjuntura política nacional, o pontificado de Bento XVI e as comunidades eclesiais de base (CEBs). Boff comentou a possível candidatura presidencial da senadora Marina Silva (PV-AC) e criticou o conservadorismo do atual líder da Igreja Católica.

Primeira Página – Ficou célebre o telefonema em que o senhor pediu à senadora Marina Silva que seja candidata à presidência da República. Como a ex-ministra reagiu a esse apelo?

Leonardo Boff – Não fiz apelo nenhum a ela para ser candidata. Ela me telefonou para pedir apoio no sentido de suscitar a questão ecológica como uma questão estratégica de todos os partidos, e não só do PV. E eu disse que essa causa eu apóio. A outra – de ela ser candidata ou não – ela mesma não sabe. E eu disse que, se ela assumir essa causa ecológica como fundamental para o Brasil e para a salvaguarda da vida do planeta, ela podia contar com meu apoio explícito. Mas isso é uma decisão pessoal dela, sobre a qual eu não queria opinar.

PP – Se Marina Silva não se candidatar à presidência pelo PV, a polarização Serra-Dilma terá algum sentido?

LB – Acho que tem um sentido, porque Serra representa o projeto político do Brasil neoliberal, articulado com o processo mundial de mercado, ao passo que Lula representa um Brasil mais republicano, mais ligado às questões sociais, um projeto mais brasileiro do que mundial. E, seguramente, o confronto será entre o que foi o governo de oito anos de Fernando Henrique e o que foi o governo de oito anos de Lula; as vantagens e limitações que cada um tem. Mas espero que a polarização não seja de comparação do que fez ou deixou de fazer, mas que se rediscuta que tipo de Brasil queremos para o tipo de mundo ameaçado pelo aquecimento global, pela crise mundial do sistema de convivência. O Brasil é um país-chave no sentido de garantir um futuro de esperança para a humanidade e de uma estabilização do planeta Terra, que está em situação de caos.

PP – É possível comparar Marina Silva ao fenômeno Obama?

LB – Acho que é possível, porque temos que aceitar o princípio da surpresa. Jamais imaginamos que um negro, muçulmano, nascido fora dos Estados Unidos fosse presidente. E não é impossível que uma mulher, uma seringueira, uma amazônica venha a ser presidente do Brasil.

PP – Numa entrevista ao Pasquim 21, em 2002, o senhor defendeu a construção de um novo paradigma socialista. A Alba de Chávez e seu “socialismo do século 21” representam o modelo que o senhor esperava?

LB – Quando falo em socialismo, não penso em nenhum modelo concreto hoje existente. Para mim, socialismo é a radicalização da democracia, quer dizer, viver uma democracia sem fim como a formulou o grande sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. Uma democracia que deve ser vivida em todas as relações, seja entre as pessoas, nas famílias, nas escolas, nas fábricas e na organização do Estado. Essa democracia significa participação irrestrita de todos na construção comum do bem comum.

PP – A Igreja da Libertação tem contribuído com a construção de um novo modelo socialista?

LB – A Igreja da Libertação teve como guia Paulo Freire, um dos fundadores da Teologia da Libertação. Esta, mais que tudo, implica uma pedagogia de como trabalhar com os pobres, a partir dos pobres e contra a pobreza. O ideal sempre sustentado pela Teologia da Libertação é a de uma democracia que vem de baixo, inclusiva e por isso social. Mas nunca tomou como referência nenhum ensaio socialista, muito menos aquele arremedo de socialismo vivido no Leste Europeu, que outra coisa não era que a ditadura do Estado e do partido.

PP – As CEBs estão se transformando em comunidades ecológicas e ecumênicas de base?

LB – As CEBs nasceram ecumênicas, porque na base as várias igrejas se encontram e juntas têm como referência não tanto doutrinas e dogmas mas a leitura comunitária do Evangelho, sempre confrontado com a vida de onde se tiram decisões práticas para a comunidade. Hoje elas despertaram para a questão ecológica. Isso pôde ser verificado no 12º Encontro Intereclesial das CEBs, em Porto Velho (RO), na segunda quinzena de julho. Estavam presentes cerca de três mil representantes de todas as comunidades. Discutiram por quatro dias o tema que foi objeto de estudo por três anos: “Do ventre da Terra, o grito que vem da Amazônia”. Na conclusão final, decidiram ler a sigla CEBs não apenas como eclesiais de base mas como também ecológicas de base. O documento final assume a categoria “florestania”, inventada no Acre para expressar uma cidadania vivida em convivência e em respeito para com a floresta.

PP – Se houvesse um conclave hoje, haveria espaço para a eleição de um pontífice progressista?

LB – Percebo um grande estresse na Igreja Católica universal. São já muitos anos de imposição de um modelo de igreja de cima para baixo, autoritário, sem diálogo com as demais religiões e igrejas e em confronto com o mundo moderno. Isso é um atraso atroz face àquilo que o Concilio Vaticano II (1962-1965) havia conquistado, fazendo um acerto de contas positivo da presença da Igreja dentro do mundo moderno e escutando as angústias e as esperanças da humanidade sofredora. Creio que qualquer papa que vier, que rompa esta linha dura, será um progressista. Há espaço para mudanças até para salvar a credibilidade, que é pouca, da Igreja Católica e para que ela se associe aos outros que também buscam a espiritualidade e se preocupam pelo destino comum da Terra e da humanidade.

PP – Sob Ratzinger, a Igreja ainda tem carisma e poder?

LB – Lamentavelmente, sob o papa Ratzinger predomina avassaladoramente o poder, contra o sentido do Evangelho, e afogando praticamente todas as manifestações do carisma. Este foi enviado ao limbo ou se encontra à margem da instituição. Mas o Espírito sempre suscita carismáticos que denunciam as injustiças neste mundo (tão diferentes dos atuais “carismáticos” que mais dançam e cantam do que se preocupam com os direitos dos pobres e da mãe Terra) e anunciam um outro mundo possível onde os bens do Reino podem ser melhor antecipados. Os papas passam, especialmente os conservadores, aqueles que não sabem ler os sinais dos tempos e não escutam o clamor que vem da Terra. Mas membros da Igreja, especialmente nas igrejas periféricas na Ásia, África e América Latina, salvam a Igreja do cinismo e mantêm viva a chama do carisma de Jesus e dos apóstolos.

*Primeira Página é o jornal laboratorial do curso de Jornalismo da Univás. A entrevista acima foi publicada na edição de agosto do PP, após a qual foi liberada a veiculação neste blog.

Foto: Éverton de Assis

Um comentário:

:: Cíntia Ferreira :: disse...

Amor, parabéns pela matéria! Sei que ao entrevistar o Leonardo Boff você realizou um grande sonho. Tenho certeza que em sua carreira muitos outros sonhos seus serão realizados e eu quero estar ao seu lado para prestigiar sua felicidade!
Sucesso sempre!
Te admiro muito e torço muito por você! Tenho muito orgulho de ser sua namorada, sua noiva e sua quase esposa!
Te amo!