23 de out de 2009

O que é ser ridículo?

O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) protagonizou recentemente uma cena no mínimo constrangedora. Duas, aliás. A primeira foi ter vestido uma sunga vermelha sobre um de seus bem cortados ternos nos corredores do Congresso Nacional, aceitando um convite de gosto duvidoso da bela e acéfala Sabrina Sato. O segundo episódio é consequência do primeiro: Suplicy foi ameaçado de sofrer investigação (!) pelo corregedor do Senado, Romeu Tuma (PTB-SP), por ter sido fotografado e filmado usando a peça íntima sobre o traje oficial. A intenção de Sabrina era encontrar políticos que merecessem ser comparados a super-heróis. Suplicy entrou na brincadeira e imitou o uniforme do mais famoso deles, o Superman.

O gesto do senador petista foi chamado de ridículo e teria ferido o decoro parlamentar. Decoro significa decência. Embora o ato não tenha sido um feito heroico, não há dúvidas de que a carreira política de Suplicy sempre pareceu decente. Mas basta um ato mal calculado ou uma declaração impensada para que as supostas vestais do templo substituam décadas de trajetória admirável por uma atitude ‘condenável’.

Malcomparando, esse episódio no Senado guarda semelhanças com trechos do filme ‘O povo contra Larry Flint’. O longa expõe os principais acontecimentos da vida do editor de uma revista pornográfica norte-americana. Flint foi execrado pelos conservadores dos EUA por conta do conteúdo ‘apelativo’ da publicação. Numa cena antológica, o protagonista discursa para uma plateia libertária: “O que é mais obsceno? O sexo ou a guerra?” Indecente, para ele, era ver fotos de cadáveres fardados, e não de genitálias femininas.

Voltemos à cueca vermelha. Antes dela, Suplicy já havia praticado gestos que o senso comum classifica de ridículos. No ano 2000, ‘morou’ por três dias na favela de Heliópolis. Em 2003, teve seu celular roubado, mas recuperou o aparelho depois de correr até o ladrão e o presenteou com um livro. Já cantou ‘Blowin’ in the Wind’ em plenário algumas vezes. Filho de aristocratas, ajudou a fundar um partido operário de esquerda em 1980 e tornou-se o apóstolo da renda básica de cidadania.

Diante dessa figura humana tão especial, cercada de gângsters por quase todos os lados no Senado, deve-se perguntar: ser diferente é ridículo?

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