30 de out de 2009

Pouco divulgada, poluição luminosa já é discutida no Vale do Sapucaí


[Reportagem de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Uma rápida pesquisa em qualquer site de busca é suficiente para se constatar que a poluição luminosa tem sido menos citada na internet do que outras formas de poluição (do ar, das águas, do solo, sonora, visual e atmosférica). O tema ainda não recebe muita atenção da imprensa nacional, mas já vem sendo discutido em algumas cidades do Vale do Sapucaí. Para reunir informações e opiniões a respeito da poluição luminosa, a Gazeta do Vale procurou sul-mineiros que se preocupam com este problema.

Saulo Gargaglioni, mestre em engenharia da energia pela Universidade Federal de Itajubá (Unifei), explica que a poluição luminosa pode ser definida como “a luz externa mal-direcionada que não é aproveitada devidamente, causando o brilho visto acima das cidades, ao invés de somente iluminar o chão”. Trata-se, portanto, do desperdício de iluminação artificial durante a noite. Isso ocorre, segundo Gargaglioni, quando há dispersão de luz acima da linha do horizonte, o que reduz a luminosidade no chão e, por outro lado, projeta um brilho alaranjado no céu.

A poluição luminosa contribui para o aquecimento global, pois aumenta a emissão de gases do efeito estufa. Além disso, a exposição à luz no período noturno pode aumentar a incidência de câncer de mama, já que a glândula pineal só sintetiza o hormônio melatonina no escuro. “A redução desse hormônio tem sido altamente correlacionada com o aumento do risco de câncer de mama. A incidência de câncer de mama em mulheres que trabalham em turno invertido é maior do que em mulheres que trabalham durante o dia”, relata Gargaglioni. Outro efeito negativo, provocado quando a iluminação excessiva invade as casas, é a queda da qualidade do sono, que pode ocasionar estresse.

O ambientalista Guilherme Abraão, de Estiva, alerta para as consequências da poluição luminosa na vida de algumas espécies animais. “Dia e noite são ciclos fundamentais para a manutenção da vida no planeta. Em muitos locais, as luzes artificiais transformam noite em dia, ou seja, 24 horas de luz, de claridade. Assim, muitas espécies não conseguem se adaptar ou se desenvolver e, dessa forma, acabam acontecendo desequilíbrios ambientais”, lamenta. Abraão cita como exemplo a migração de tartarugas em regiões litorâneas: “Elas procuram locais sem iluminação para desovar. Como existem poucos lugares sem luz, elas acabam se concentrando, facilitando o ataque dos predadores”.

Gargaglioni frisa que a ciência é uma das áreas mais prejudicadas pela degradação do céu. Técnico do Observatório do Pico dos Dias (Brazópolis/Piranguçu), o pesquisador da Unifei comenta que “parte da luz direcionada para o espaço é refletida por gotículas formadas pela umidade e partículas de pó atmosféricas, causando um fundo luminoso que sobrepõe à luz natural do céu e das estrelas”. Assim, forma-se um obstáculo para a observação de estrelas por astrônomos. O presidente do Clube de Astronomia e Cultura de Cambuí, Eurico Wagner Silva, relata que a poluição luminosa dificulta as atividades da entidade. “No sentido de que existimos devido ao nosso interesse de observar o céu, é óbvio que uma iluminação propícia ajudaria muito”, afirma Silva.

Soluções – Saulo Gargaglioni entende que a redução da poluição luminosa depende de planejamento dos sistemas de iluminação. Entre as ações necessárias, diz ele, estão o posicionamento correto de lâmpadas e o uso de luminárias eficientes em espaços públicos, painéis publicitários, fachadas e monumentos. O pesquisador afirma que Pouso Alegre, Itajubá e Santa Rita do Sapucaí já substituíram lâmpadas de vapor de mercúrio por outras de vapor de sódio, “mais modernas, eficientes e econômicas”. Para Gargaglioni, a situação estaria melhor se as três cidades adotassem luminárias que reduzam a poluição luminosa. “Os ‘globinhos’ que são utilizados nas praças são grandes vilões”, diz.

Na opinião de Eurico Silva, os municípios de Cambuí, Estiva e Córrego do Bom Jesus têm poluição luminosa relativamente pequena, mas falham por não combaterem o desperdício de luz artificial. “A correta angulação das luminárias públicas, algo extremamente simples, já resolveria a maior parte do problema”, resume o presidente do Clube de Astronomia. Guilherme Abraão acredita que a redução desse tipo de poluição deve ser buscada tanto pelo poder público como pela iniciativa privada. O ambientalista sugere que os governos diminuam impostos ou subsidiem a aquisição de lâmpadas que “duram mais e consomem menos”.

Segundo Gargaglioni, Itajubá e Santa Rita são bons exemplos de combate à degradação do céu. O prefeito itajubense Jorge Renó Mouallem (PTB) decidiu que só aceitará a instalação de luminárias que combatam a poluição luminosa e determinou que as novas empresas da cidade recebessem orientações para evitar o mal-direcionamento da luz. Já o Vale da Eletrônica é, de acordo com o pesquisador da Unifei, o primeiro município brasileiro a incluir em seu plano diretor ações que evitam a poluição luminosa.

Imagem: Divulgação

2 comentários:

Cíntia Ferreira disse...

Amor, parabéns pela matéria da poluição luminosa. É um assunto muito importante que você descobriu sozinho, com toda essa persistência e força de vontade que tem! Te admiro muito como ser humano e homem que és.
Te amoo e tenho muitooo orgulho de ser sua Noiva!!
Beijos

OFICINA TECNOLÓGICA disse...

É isso mesmo Jonas, existem muitas maneiras de se minimizar os impactos ao meio ambiente e, uma delas é essa.
Muito bem lembrado pelo pesquisador da UNIFEI o fato do Plano Diretor de Santa Rita do Sapucaí, tão criticado por pessoas que não entendem nada de desenvolvimento sustentável, contemplar esse assunto.
Essa minoria que quer derrubar o projeto do plano diretor do Vale da Eletrônica, alegando que ele é "abrangente", deveria saber que é exatamente a abrangencia do nosso plano diretor que o torna uma referencia positiva em relação à maioria dos planos diretores que se conhece.
gde abraço!

João Paulo de Oliveira Neto
jpon70@gmail.com
Membro do Nucleo Gestor do PDP de Santa Rita do Sapucaí