26 de out de 2009

A volta da UDR

A sigla UDR tinha status de partido político na segunda metade da década de 1980, tamanha era sua exposição no noticiário político. O auge da influência da União Democrática Ruralista deu-se entre a Assembleia Nacional Constituinte (87/88) e a campanha presidencial de 1989. O então presidente da UDR, o goiano Ronaldo Caiado, era o rosto mais conhecido do movimento e chegou a concorrer ao Palácio do Planalto.

Caiado tornou-se, mais tarde, deputado federal e líder da bancada ruralista – grupo de parlamentares ligados ao setor agropecuário. A UDR submergiu nos anos 90 e hoje tem existência cartorial. O espaço político da outrora temida entidade vem sendo assumido nos últimos anos pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

O novo rosto dos ruralistas brasileiros é o de Kátia Abreu, presidente da CNA e senadora do DEM de Tocantins. Vaidosa, sempre maquiada e com acessórios modernos, Kátia é a antítese de Heloísa Helena em todos os sentidos. As diferenças entre as duas ficaram mais nítidas na semana passada, quando os ruralistas conseguiram criar uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para investigar supostas irregularidades envolvendo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Kátia Abreu e seus companheiros da direita são os proponentes da CPI, ao passo que Heloísa Helena e outros líderes de esquerda condenam a investigação. A comissão deve centrar suas baterias nos canais de financiamento do MST, especialmente em repasses do governo federal. Quando o destino do dinheiro público é colocado sob suspeita, o mínimo que se espera é esclarecimento. Mas investigar e perseguir são verbos distintos. O MST será alvo da terceira CPI em cinco anos.

O surgimento da mais nova comissão de inquérito do Congresso é, principalmente, uma reação dos ruralistas à luta do MST pela revisão dos índices de produtividade da terra (os parâmetros vigentes para desapropriações são de 1975). O Brasil, que ainda não fez sua lição de casa na reforma agrária, não precisa de mais uma CPI contra um movimento social.

Urge investigar fatos mais preocupantes, como a liderança do país no consumo de agrotóxicos (713 milhões de toneladas na safra passada). Os responsáveis por esse vergonhoso título não são os sem-terra ou os agricultores familiares, mas o agronegócio representado pela CNA. É a velha UDR com botox, um pouco de maquiagem e mais veneno.

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