27 de nov de 2009

Julgamento no escuro

Cesare Battisti não ocupa cargo político nem participa de reality show, mas é um dos nomes mais citados nos últimos meses pelos veículos de comunicação brasileiros. Ele é um escritor italiano que nos anos 70 pegou em armas para defender suas idéias revolucionárias. Condenado a prisão perpétua pela Justiça da Itália, é apontado como autor de quatro homicídios.

O grupo no qual Battisti militou chamava-se Proletários Armados pelo Comunismo (PAC). Coincidência ou não, essa mesma sigla designa o Programa de Aceleração do Crescimento, plano de investimentos em infraestrutura que tem como mentora a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), que participou da luta armada durante a ditadura militar. Curiosamente, a exposição de Battisti aumenta na medida em que se aproximam as eleições presidenciais de 2010, quando Dilma deve concorrer pelo PT.

O interesse de atingir Dilma indiretamente é apenas uma hipótese. Mas quais seriam os outros motivos para tamanha atenção sobre a trajetória de um homem outrora desconhecido no Brasil? Talvez seja pela atuação de políticos brasileiros e italianos, a favor ou contra a extradição do ativista. Na Itália, a classe política parece unida contra Battisti, do premiê direitista Silvio Berlusconi ao líder de centro-esquerda Massimo D’Alema. No Brasil, só uma parte da esquerda acredita em sua inocência.

O caso Battisti começou a repercutir internacionalmente em janeiro deste ano, mais precisamente no momento em que o ministro Tarso Genro (Justiça) concedeu refúgio político ao escritor. Ele havia sido detido no Brasil em 2007. É no Presídio da Papuda, em Brasília, que o escritor aguarda a decisão do presidente Lula que selará seu destino. Compete apenas ao mandatário aprovar ou rejeitar a extradição.

Não é fácil opinar sobre um processo tão polêmico. Muito menos decidir o futuro de uma vida humana cercada de dúvidas. Mesmo assim, figuras como Alexandre Garcia pedem quase diariamente que Battisti seja defenestrado. É por essas e outras que o jornalista Paulo Henrique Amorim alerta que a ‘grande mídia’ atua como partido político.

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