20 de nov de 2009

República renovada

Convencionou-se chamar de Nova República o período da história brasileira inaugurado com a eleição do civil Tancredo Neves, em 1985, depois de 21 anos de presidentes militares. Porém, a nova fase nasceu com ares de velha. Eleito aos 74 anos, Tancredo morreu sem assumir o cargo, que acabou sendo exercido pelo vice José Sarney, antigo apoiador da ditadura. Os dois velhos políticos profissionais foram escolhidos por colegas de ofício, numa votação restrita aos membros do Congresso Nacional.

A República brasileira só voltou a ser verdadeiramente pública em 1989. Não por acaso, a primeira eleição direta para a presidência desde 1960 ocorreu no dia 15 de novembro – data em que a República fora proclamada, exatamente 100 anos antes. O povo recuperou o direito de escolher seu líder e teve 22 opções na cédula. Pela primeira vez, estavam na disputa um operário, uma mulher e um negro. Os partidos comunistas não eram mais clandestinos; os exilados haviam regressado à sua pátria.

Todas as grandes agremiações partidárias foram representadas no pleito. O PMDB ainda tinha Ulysses Guimarães. O antigo PFL era a legenda de Aureliano Chaves. Pelo PDT lançou-se Leonel Brizola. O candidato do PSDB era Mário Covas. Lula da Silva era o nome oferecido pelo PT. Já o extinto PDS tinha Paulo Maluf como líder. Também concorreram Roberto Freire (PCB), Afif Domingos (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Fernando Gabeira (PV)... e Fernando Collor de Melo (PRN).

Collor venceu por obra e graça de uma propaganda tão eficiente quanto inescrupulosa. Seduziu o país com sua cara lavada e com a promessa de lavar mais branco. Teve apoio da Rede Globo e de quase todo o resto da mídia. Fugiu dos debates do primeiro turno, mas soube usar a TV a seu favor.

O personagem ridículo apelidado de caçador de marajás nem chegou a terminar seu mandato. Foi cassado, morto e sepultado, mas ressuscitou ao terceiro pleito, em 2006. Collor e o Brasil mudaram nos últimos 20 anos. O ex-presidente hoje apóia o ex-desafeto Lula. Muitos partidos mudaram de sigla, de lado e de dono. As fronteiras entre esquerda e direita estão menos nítidas. A forma de eleger o presidente não foi alterada – e isso garante que a República seja sempre renovada.

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