19 de dez de 2009

Santa-ritenses criam grupo para rediscutir Plano Diretor

[Reportagem de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O Plano Diretor Participativo (PDP) de Santa Rita do Sapucaí será revisto por um grupo de 35 cidadãos que representam 15 segmentos. A nova instância recebeu o nome de Núcleo de Sistematização e foi criada na última terça-feira, 15, durante reunião promovida pela Prefeitura no auditório da Escola Técnica de Eletrônica (ETE). Mais de 180 pessoas participaram do encontro.

O prefeito Paulo Cândido da Silva (PV) e seu vice, David Carvalho Kallás (PSB), explicaram a finalidade do Plano Diretor e citaram exemplos históricos da falta de planejamento urbano em Santa Rita. No início do evento, um vídeo produzido pela Assessoria de Imprensa da Prefeitura expôs alguns efeitos do crescimento desordenado da cidade, como inundações frequentes e pavimentação deficiente.

O prefeito apresentou aos participantes dois servidores do governo mineiro (foto) que se dispuseram a colaborar com a reformulação do PDP: Rômulo Antônio Viegas (engenheiro e subsecretário de Desenvolvimento Regional e Urbano) e Alline Fernandes Corrêa (urbanista e diretora de Fomento da Gestão Urbana). A participação de ambos foi solicitada por Silva depois que a equipe da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), responsável pela elaboração do plano original, se negou a reformular a proposta. O coordenador da equipe, Francisco Antônio Dupas, anunciou a recusa durante uma reunião em que foi duramente criticado por empresários santa-ritenses insatisfeitos com o PDP.

O movimento contra a proposta da Unifei foi articulado, principalmente, por proprietários de imobiliárias e produtores rurais. Os dois grupos se uniram novamente na reunião do dia 15 e demonstraram força no momento da formação do Núcleo de Sistematização. Dos 28 membros escolhidos na terça-feira, 13 possuem ou representam empresas e três são produtores rurais. Duas vagas do núcleo foram reservadas para o setor imobiliário, mas outros dois corretores foram indicados por entidades e o filho de um proprietário de imobiliária representará o setor industrial.

O prefeito tentou aprovar, na mesma reunião, o número de representantes dos segmentos que participarão do Conselho Municipal da Cidade, órgão deliberativo que atuará na elaboração do Plano Diretor e acompanhará sua execução. Os percentuais sugeridos pelo prefeito foram defendidos por Rômulo Viegas e Alline Corrêa, segundo os quais a proposta estaria amparada por uma resolução do Conselho das Cidades. Não houve acordo entre os participantes do encontro e, por isso, a decisão foi adiada.

Os percentuais de representação da Prefeitura (26%), da Câmara Municipal (16%) e das entidades acadêmicas (7%) foram os itens questionados. O proprietário de imobiliária Alex Ander Menezes Capistrano de Alckmin propôs que os poderes legislativo e executivo invertessem seus números para “viabilizar politicamente” a aprovação do PDP, pois a decisão final caberá aos vereadores. A mesma posição foi defendida pelo presidente da Cooperativa Regional Agropecuária de Santa Rita do Sapucaí (CooperRita), Luiz Fernando Ribeiro. Já o advogado Júlio Cezar Caponi ponderou que as instituições de ensino da cidade não devem ficar sub-representadas em função de uma “resolução que orienta, mas não determina”.

Os participantes da reunião aprovaram um cronograma proposto pela administração municipal para a revisão do Plano Diretor. As propostas do Núcleo de Sistematização deverão ser entregues à Prefeitura até 1º de fevereiro de 2010. Em seguida, o Município procederá à análise técnica e jurídica das ideias. O envio do novo projeto de lei à Câmara está previsto para o dia 12 de março. Segundo Alline Corrêa, a “base de trabalho” do núcleo é o documento elaborado pela Unifei, que segundo Rômulo Viegas foi “muito bem feito tecnicamente”.

Instâncias – Em entrevista, o prefeito Paulo Cândido da Silva afirmou ter criado o Núcleo de Sistematização para assegurar a participação dos cidadãos e explicitar seu compromisso com a democracia. Segundo Silva, a primeira providência do núcleo deve ser a indicação de nomes para o Conselho Municipal da Cidade, do qual sairá o documento a ser encaminhado ao prefeito. “O Conselho da Cidade é que tem valor, é que tem força perante a lei”, explica. O conselho foi criado em 2006, mas está inativo. Em junho deste ano, o prefeito instituiu o Núcleo Gestor do PDP, com seis integrantes. A proposta da Unifei prevê a criação de outro órgão: o Conselho Municipal Multidisciplinar.

Foto: Jonas Costa

Núcleo de Sistematização do Plano Diretor

> Poder Executivo Municipal: Marcos Antônio Salvador de Barros, Pedro Sérgio Monti, Daniel Teixeira e Paula Prado Costa

> Associações de moradores: Ivan Gonçalves Ribeiro (zona rural), Deusdete Alves Franco (Amoj), Miguel Garcia Caputo (Amoj) e mais um nome ainda indefinido

> Poder Legislativo Municipal: vereadores Vagner Fernandes Mendes, Hudson dos Reis Carvalho Pinto e Waldecir Maciel Januário

> Indústria e comércio: Roberto de Souza Pinto (Sindvel), César Sodré Moreira de Alckmin (Sindvel) e Fabiana Gontijo Rocha (Acevale)

> Produtores rurais: Luiz Fernando Ribeiro (CooperRita), Leonilton Moreira (Sindicato Rural) e Décio de Almeida Azevedo (CooperRita)

> Instituições de ensino: Júlio Cezar Caponi (Inatel), Ialdo Correia Costa (ETE) e Juceli Costa de Lima (FAI)

> Entidades assistenciais: Marcos Goulart Vilela (Asilo), Sidney Severini Júnior (Maçonaria) e mais um nome ainda indefinido

> Organizações não-governamentais: Isabela Duarte Carneiro e Luciana Aflisio do Couto (Associação dos Amigos do Rio Sapucaí)

> Imobiliárias: Alex Ander Menezes Capistrano de Alckmin e Giovanni Perrotta

> Construção civil: Nakle Mohallem e Maria Zilá Macedo Monti

> Setor operário: Maria Rosângela Lopes (Sindmetsrs) e mais um nome ainda indefinido

> Ordem dos Advogados do Brasil (OAB): José Caponi de Melo

> Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA): Júlio César Costa

> Setor hospitalar: Regina Trevisan (Hospital Maria Thereza Rennó)

> Imprensa: nome ainda indefinido

Luta sem classe

Três importantes reuniões aconteceram nesta semana em diferentes níveis. O planeta acompanhou as intrincadas negociações da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Copenhague (Dinamarca). No Brasil, a capital federal foi escolhida como arena de debates da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). Santa Rita do Sapucaí também sediou um encontro digno de registro: a segunda reunião em menos de 10 dias para definição dos rumos do Plano Diretor Participativo (PDP). Além da simultaneidade, os três eventos revelam mais uma característica em comum, qual seja, o choque entre o poder econômico e o interesse público.

Os ricos adotaram estratégias distintas nos debates de Copenhague, Brasília e Santa Rita. Na conferência do clima, os representantes dos EUA exibiram uma tímida meta de redução das emissões de gases-estufa, bem menor que os cortes propostos pela União Europeia, Japão e Brasil. Na Confecom, em vez de ‘timidez’, os grandes empresários da mídia preferiram o boicote – ausentaram-se dos debates as associações nacionais de rádio e TV (Abert), jornais (ANJ), revistas (Aner), internet (Abranet) e TV por assinatura (ABTA). Em Santa Rita, o empresariado local adotou postura oposta e compareceu em peso à reunião, enquanto seus empregados vertiam o suor matinal.

Os meios de comunicação de abrangência nacional se ocuparão de registrar os desdobramentos de Copenhague e da Confecom, demasiado complexos para caberem num modesto editorial. Resta à imprensa santa-ritense acompanhar detidamente a fase decisiva em que o Plano Diretor entrou na última terça-feira. O prefeito Paulo Cândido da Silva sabe que, ao levar o PDP adiante, ajudará a escrever páginas indeléveis da história do município. Sabe também que não as redigirá sozinho, como repetiu em entrevista aos jornais Gazeta do Vale e O Vale da Eletrônica.

O prefeito desempenha nesse debate uma missão a um só tempo honrosa e espinhosa. Alguns empresários e produtores rurais o querem na posição de ‘magistrado’ – um eufemismo para omisso, palavra que não combina com o estilo franco e responsável do mandatário. Querem um Plano Diretor insípido, inodoro e incolor, isto é, que não prejudique seus interesses. Defendem valores liberais contra fantasmas comunistas que só existem em seus discursos falaciosos. Comportam-se como coronéis da República Velha quando dizem representar a vontade popular.

Os anticomunistas hão de concordar com Karl Marx num ponto: a luta de classes é o motor da história. E pode mover a cidade para longe das mãos de uma elite anacrônica.

12 de dez de 2009

Discussão do Plano Diretor é retomada em reunião tensa

[Reportagem de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Uma reunião conturbada marcou o reinício das discussões do Plano Diretor Participativo (PDP) de Santa Rita do Sapucaí, na última segunda-feira, 7. O encontro foi organizado pela Prefeitura no Centro Vocacional Tecnológico (CVT) e teve a participação de 37 pessoas – em sua maioria, empresários dos ramos imobiliário e eletrônico, produtores rurais e membros da atual administração municipal. Na ocasião, o prefeito Paulo Cândido da Silva (PV) anunciou que o novo texto do PDP deverá ser aprovado por representantes de instituições santa-ritenses no prazo de dois meses. Silva havia encaminhado à Câmara Municipal um projeto de lei criando o plano, mas retirou a proposta para atender a um pedido unânime dos vereadores.

A reunião do dia 7 expôs a insatisfação de alguns setores econômicos com o projeto original do Plano Diretor. O professor Francisco Antônio Dupas, coordenador da equipe que elaborou o documento entre 2006 e 2007, compareceu ao encontro como convidado da Prefeitura, mas acabou interrogado pelos santa-ritenses por quase duas horas. A primeira versão do PDP foi defendida somente por Dupas e pelo diretor da Divisão de Meio Ambiente da Prefeitura, Giancarlo Mendes de Carli. A maioria dos debatedores dirigiu críticas ao conteúdo do plano original e sugeriu regras para a discussão do novo projeto com a sociedade.

Dupas e proprietários de imobiliárias trocaram farpas durante toda a reunião. O professor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) salientou que os corretores de imóveis deflagraram um movimento contra o PDP para defender seus interesses particulares. “Toda vez que a gente mexe com espaço urbano ou rural, a gente mexe com interesses. Esses interesses são traduzidos em dinheiro e poder. É um jogo”, explicou Dupas. O empresário Alex Ander Menezes Capistrano de Alckmin negou que suas críticas tenham caráter exclusivamente classista. “Se o interesse particular meu coincide com o interesse do município, não há mal nenhum nisso. Aliás, sempre o interesse do município vai coincidir com o interesse particular de alguém”.

Outro dono de imobiliária, Giovanni Perrotta, listou supostas falhas da proposição retirada da Câmara e perguntou a Dupas se ele havia lido o documento antes de entregá-lo ao prefeito. O professor respondeu que os itens condenados por Perrotta “não são erros estruturais” e sugeriu a contratação de um revisor. Ao ouvir Giancarlo Carli dizer que o PDP está “muito bem feito”, Alex Capistrano acusou a equipe da Unifei de tê-lo retirado da internet. O prefeito chegou a interromper a discussão para alertar que Dupas não deveria ser “crucificado”.

Francisco Dupas relatou que os anseios da população santa-ritense foram identificados através de questionários distribuídos por sua equipe. O diretor da empresa Estamparia Santarritense, Ricardo Carvalho Rennó, discordou do professor e rotulou de “legislação venezuelana” os artigos que tratam do direito de preempção (preferência à Prefeitura na aquisição de imóveis que lhe interessem). A ideia de se adotar IPTU progressivo para coibir a especulação imobiliária também foi atacada por Rennó. “Quem mais contrariaria essa lei, hoje, é a própria Prefeitura, que tem imóveis não-edificados e subutilizados no perímetro urbano”, afirmou.

A preocupação com a participação popular no novo ciclo de debates foi externada por Dupas. “Resolver o plano dentro desta sala não é previsto na lei”, alertou. O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais, Leonilton Moreira, deixou a reunião dizendo: “Daqui não vai sair nada”. Moreira acabou discutindo com o representante da CooperRita, Décio de Almeida Azevedo, que respondeu: “É desta reunião que vai sair o plano”. Alex Capistrano elogiou o prefeito por ter chamado “as pessoas certas” para a reunião. No entanto, Paulo Cândido da Silva assegurou que haverá amplo diálogo com a sociedade civil sobre o Plano Diretor.

O prefeito esclareceu que o PDP fora redigido antes de sua posse, mas que a atual administração tem se empenhado em transformar o projeto em lei. O assessor de Planejamento da Prefeitura, Yago Euzébio Bueno de Paiva Junho, ressaltou que a aprovação do Plano Diretor é uma “condição fundamental” para que o Município consiga alguns recursos financeiros do governo federal. “Várias verbas não vêm se o Plano Diretor não estiver aprovado”, revelou.

Paulo Silva sugeriu que um novo convênio fosse celebrado entre a Prefeitura e a Unifei. Francisco Dupas, porém, descartou a proposta após ser chamado de “radical” e “louco” por donos de imobiliárias. “Acho melhor a gente ficar fora dessa etapa porque o embate não vai ser construtivo. Espero que não seja mais um plano como o de Itajubá, porque ali imperam os grandes loteadores e a pouca vergonha é generalizada. Espero que vocês não empurrem a cidade para dentro do buraco. Está nas mãos de vocês”, afirmou o professor, dirigindo-se aos participantes da reunião.

Próximo encontro - Uma nova reunião sobre o plano foi marcada para a próxima terça-feira, 15, a partir das 9h, no auditório da Escola Técnica de Eletrônica (ETE). O evento definirá a composição dos grupos de trabalho que irão auxiliar a Prefeitura na elaboração do PDP. Qualquer cidadão pode participar.

Foto: Jonas Costa

Rumos do Plano Diretor

“O Plano Diretor tem que estar adequado à nossa realidade, mas não aos interesses de cada um dos 38 mil habitantes de Santa Rita. Isso é impossível. Temos que tentar construir o mínimo de consenso, mas alguém vai perder e alguém vai ganhar.”
Magno Magalhães Pinto, presidente da Câmara Municipal

“Se compararmos com um produto, [o Plano Diretor] agora está fora de garantia, mas tem conserto. É só contratar um técnico e consertar.”
Roberto de Souza Pinto, presidente do Sindvel

“Estou vendo que a Câmara teve a sabedoria de pedir uma revisão. A discussão é mais que oportuna porque a Câmara está tendo a prudência de discutir com a comunidade antes de fazer a lei.”
José Caponi de Melo, advogado

“Acho que não devemos sair do oito e ir para o oitenta porque nos extremos não está a boa solução. Temos que buscar uma solução equilibrada.”
Marcos Goulart Vilela, empresário

Sociólogo prepara biografia de Ruy Brandão

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

A história da primeira emissora de rádio de Santa Rita do Sapucaí e a vida de seu fundador estão sendo transformadas em livro pelo sociólogo Yago Euzébio Bueno de Paiva Junho. As pesquisas e entrevistas sobre Ruy Brandão (1914-2002) e a Rádio Difusora Santarritense foram iniciadas há um ano e meio. A ideia surgiu depois que Bueno foi eleito para a cadeira número 38 da Academia de Letras, Ciências e Artes da cidade, cujo patrono é ‘Seu Ruy’. O acadêmico percebeu que um discurso, como é praxe na confraria, seria insuficiente para homenagear o patrono.

Para Bueno, o pioneiro da radiodifusão foi também o introdutor da eletrônica em Santa Rita. Segundo as pesquisas do sociólogo, Ruy Brandão criou uma das primeiras oficinas de conserto e montagem de rádios da cidade, no início da década de 1940. O surgimento da empresa Brandotoni teria preparado a população santa-ritense para o que Bueno chama de “cultura tecnológica”. “Quando a ETE [Escola Técnica de Eletrônica] foi criada, em 1959, as pessoas já sabiam minimamente o que era eletrônica. Seu Ruy foi um dos responsáveis por isso”, assinala.

O livro de Yago Bueno terá como título ‘Nas ondas da perseverança’ porque, segundo o autor, a obstinação foi a maior virtude de Ruy Brandão. Esse traço de personalidade ficou mais nítido nos primórdios da Difusora Santarritense. Sob críticas e sem patrocínio, o radialista pioneiro persistiu em seu sonho. Nas primeiras transmissões, em 1946, a rádio ainda era ‘perereca’ (expressão que hoje equivale a ‘pirata’). O estúdio clandestino foi denunciado e, logo depois, impedido de funcionar. A concessão da frequência e a inauguração oficial só aconteceram no ano seguinte.

Seu Ruy começou a entender o funcionamento dos rádios por acaso, enquanto traduzia apostilas em espanhol para o amigo Chiquito Andrade, que havia se matriculado num curso de eletrônica por correspondência. Bueno considera que esse interesse pela tecnologia mudou o rumo da história da cidade. “A Rádio Difusora alterou os padrões culturais de Santa Rita e contribuiu para a integração da população. A cidade era uma antes da Rádio e passou a ser outra depois dela”.

O sociólogo pretende lançar sua obra no segundo semestre de 2010. Bueno antecipa que o livro terá muitas passagens curiosas, como a vinda do pai de Seu Ruy para Santa Rita – José Soares Brandão era um ator português e abandonou sua companhia de teatro ao se apaixonar pela santa-ritense Ordália Dias, durante uma turnê pelo Sul de Minas. Também será narrado o período em que Ruy subia em árvores para chamar a atenção de sua futura esposa, Rosa Morais Brandão. A obra terá, ainda, histórias sobre programas que marcaram época na Difusora AM, como ‘Os brotos comandam’, dos anos 60 e 70.

Foto: acervo particular

4 de dez de 2009

Estação poderá ter oficinas de teatro, mas falta espaço para artesãos

[Reportagem de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O antigo terminal ferroviário de Santa Rita do Sapucaí abrigou um centro de artesanato até março deste ano. O prédio está fechado há quase nove meses e os 118 artesãos que lá expunham suas peças ainda não recuperaram seu espaço. A Estação do Artesanato foi criada em setembro de 2007 por meio de um convênio entre a Prefeitura e a Associação dos Artesãos Santarritenses (Asas do Sapucaí). O documento deixou de vigorar em setembro de 2008 e não foi renovado pela administração municipal.

O imóvel abandonado pertence ao governo federal e foi cedido à Prefeitura em 1990 pela extinta Rede Ferroviária Federal (RFFSA). O termo de cessão autoriza o funcionamento de um centro cultural no prédio por tempo indeterminado. Na época do fechamento da Estação do Artesanato, a Procuradoria Geral do Município alegou que a Asas do Sapucaí não atuava como “casa de cultura” e que faltava uma lei municipal autorizando o uso do imóvel para venda de peças artesanais.

A associação de artesãos suspendeu sua inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) na sexta-feira passada, 27. O último presidente da entidade, Sílvio Simões, aponta a falta de apoio do poder público como principal razão da desativação. Simões diz que a escassez de recursos o obrigou a montar prateleiras com sucata e até com uma porta de guarda-roupa de sua família. Ele relata ter assumido algumas despesas da associação, como material de escritório e contas de água e luz. Para encerrar o CNPJ, segundo o ex-dirigente, foram gastos R$ 500 do próprio bolso.

Embora reclame do prejuízo financeiro, Simões cita o fechamento da associação e a dispersão dos artesãos como suas piores perdas. “Quem mais perdeu foram os artesãos”, comenta. O microempresário Edvaldo Quirino de Souza, que vendia derivados do milho na estação, conta que o fim da associação o fez mudar de ramo, reduziu a renda familiar e interrompeu o curso técnico de um de seus filhos. Para Quirino, o atual governo municipal teria se recusado a apoiar a Estação do Artesanato para não dar continuidade a um projeto inaugurado pelo ex-prefeito Ronaldo Carvalho (PSDB), cassado em 2008. “Mudou o governo, acaba tudo. Quem iria colocar vela em cima de um bolo que a outra administração fez?”

A costureira Emília Soares Pereira também foi prejudicada pela desativação do centro de artesanato. “Eu perdi. Perdi no sentido de não fazer aquilo que gosto. E perdi uma renda que não era uma fortuna, mas ajudava a família”, lamenta. Ela e cinco filhas produzem trabalhos manuais com diferentes técnicas e materiais. Sem espaço para expor e vender as peças, a família guarda em casa dezenas de caixas com bonecas de pano, enfeites de Natal, bonecos de biscuit, jóias e muitos outros artigos de alta qualidade. Emília conta que a comissão de artesanato criada pela Prefeitura em março só a convidou para uma reunião e não produziu resultados práticos.

A comissão foi uma das propostas apresentadas por representantes do governo municipal logo após o fechamento da Estação do Artesanato. Em ofício enviado à Asas do Sapucaí no dia 27 de março, a Divisão de Cultura da Prefeitura comunicou a criação de “uma nova estratégia para a divulgação dos produtos artesanais feitos por artistas da cidade”. Nesse documento foi anunciada a futura instalação de um ponto de informações turísticas no antigo terminal ferroviário, “com a exposição permanente de trabalhos dos artesãos”. Oito meses depois, a administração municipal planeja promover oficinas de teatro na estação, mas ainda não tem metas claras para valorizar o artesanato local.

O coordenador de Cultura da Secretaria Municipal de Educação, Breno Luís Costa de Mendonça, não soube informar à reportagem se a comissão de artesãos tem se reunido. Mendonça desconhece projetos voltados exclusivamente para o artesanato, mas destaca que o setor deve ser beneficiado pelo retorno de Santa Rita ao Circuito Turístico Caminhos do Sul de Minas. Segundo o coordenador de Cultura, a criação do Conselho Municipal do Turismo, com representantes dos artesãos, incentivará a descoberta de uma identidade do artesanato santa-ritense.

O assessor do Poder Executivo Janilton Prado diz que a Prefeitura de Santa Rita pretende criar um projeto semelhante ao Mercado da Arte de Cachoeira de Minas, mas ainda não dispõe de espaço físico para tanto. Prado acredita que os artesãos santa-ritenses precisam se mobilizar para conquistar um novo espaço. “Falta envolvimento, falta vontade de juntar um grupo e vir à Prefeitura para falar assim: ‘Precisamos de um espaço para tantas pessoas’. Aí eu tenho certeza de que a Prefeitura vai arrumar uma solução”.

Oficina de teatro – De acordo com Breno Mendonça e Janilton Prado, as oficinas de teatro na estação deverão ser iniciadas no primeiro semestre de 2010. Prado explica que o teatro será utilizado como “ferramenta de auxílio pedagógico” à rede municipal de ensino. Adultos e idosos, segundo ele, também poderão participar das oficinas, que serão desenvolvidas por voluntários da Associação Cultural e Produções Artísticas Band-Aid. Ao ser entrevistado pela Gazeta, Prado disse que estudará a possibilidade de incluir oficinas de artesanato no projeto.

Mendonça afirma que o prédio precisa de “adaptações internas” e de um guarda-corpo entre a calçada e a rodovia BR-459. Entretanto, o coordenador de Cultura garante que serão mantidas as características originais da antiga estação, inaugurada em 1894. O contrato entre a RFFSA e o Município estabelece que o estilo arquitetônico deve ser preservado e que “nenhuma benfeitoria poderá ser realizada no imóvel [...], sob pena de rescisão contratual”.

Foto: Jonas Costa

Livro tira artesãos cambuienses do anonimato

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Como é a vida de um artesão? O que motiva a escolha desse ofício? Quais são seus principais obstáculos? Eis algumas questões que a estudante de Jornalismo Cíntia Ferreira, 23, se propõe a responder no livro-reportagem ‘Artistas Ocultos: o ser humano por trás da obra’. O trabalho de conclusão de curso foi apresentado na última segunda-feira, 30, no auditório do Campus Fátima da Universidade do Vale do Sapucaí (Univás), em Pouso Alegre. Orientado pela professora Hellen Morais, o projeto foi aprovado pela banca examinadora.

De acordo com Cíntia, o livro-reportagem surgiu para dar voz a artesãos que vivem praticamente no anonimato em Cambuí. A futura jornalista selecionou nove histórias de pessoas simples que produzem peças artesanais por diferentes razões. Sem acesso a cursos e aos grandes meios de comunicação, os entrevistados surpreenderam a autora pelo talento na vida e na arte. “Esses artistas não desistem e têm muito amor pelo que fazem, mesmo sem receber nenhum incentivo. O dinheiro não é o único motivo para criar. Há também a necessidade de se realizar ou de resgatar uma atividade aprendida na infância”, revela.

Esse universo rico de histórias começou a ser descortinado por Cíntia numa pesquisa feita no Centro de Informações Turísticas (CIT) de Cambuí. A estudante de Jornalismo ficou impressionada com o número de artesãos residentes no município, superior a uma centena. Apesar da quantidade de artistas, a autora percebeu que faltam organização e reconhecimento ao segmento. Segundo um levantamento realizado por Cíntia, não há no Sul de Minas publicações destinadas exclusivamente a narrar vidas de artesãos. “Os jornais da região já veicularam pequenas matérias sobre a vida de alguns artesãos, mas todas priorizavam a beleza das obras. E as revistas existentes no mercado só ensinam como fazer artesanato”.

Os nove personagens de ‘Artistas Ocultos’ são Adolfo Simões de Oliveira Neto, 22; Aloísio Alex, 43; Antônio de Oliveira Lima, 80; Benedita Maria Manoel, 62; Benedito César da Silva, 60; Isolino da Silva, 33; Lairton Dias de Souza, 55; Newton Nogueira Gomes, 49; e Terezinha Maria da Rosa, 69. A autora afirma que existem muitos outros artesãos que merecem ter suas trajetórias relatadas em livro. Cíntia busca apoio para publicar sua primeira obra, mas afirma enfrentar dificuldades para concretizar este desejo.

Foto: Iara Siqueira

Presidente eleito da Câmara traça agenda para 2010

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Eleito para presidir a Câmara Municipal santa-ritense em 2010, o vereador João Paulo Sampaio (PDT) comentou em entrevista à Gazeta os temas que deverão estar no topo da agenda política do próximo ano. O parlamentar de 38 anos nasceu em Barra Mansa (RJ), é professor de história e conquistou seu primeiro mandato em 2008 com votação recorde. Atual vice-presidente da Câmara, Sampaio sucederá Magno Magalhães Pinto (PT). O petista passará a secretariar a mesa diretora, e a vice-presidência caberá ao atual secretário, Vagner Fernandes Mendes (PR).

Dos três candidatos, apenas Mendes não foi escolhido por unanimidade – teve apoio de sete dos nove vereadores, em votação secreta. O presidente eleito avalia que a apresentação de chapa única demonstra a unidade da casa legislativa. Segundo Sampaio, os membros da mesa foram mantidos porque conquistaram a aceitação da maioria durante os trabalhos deste ano. A relação entre Câmara e Prefeitura, diz ele, deve continuar harmônica sem que o legislativo abra mão de sua autonomia e de seu poder fiscalizador.

Sampaio espera que o Plano Diretor Participativo esteja entre as prioridades dos vereadores e do prefeito Paulo Cândido da Silva (PV) em 2010. “Minha preocupação maior é com o Plano Diretor. A Câmara vai abrir as portas para discuti-lo com a sociedade. O plano é obrigação do prefeito e missão de todos”, enfatiza.

A dívida da Prefeitura com a empresa BPS Terraplenagem, superior a R$ 20 milhões, também preocupa João Paulo Sampaio. O novo presidente ressalta que os primeiros pagamentos à construtora terão de ser incluídos na lei orçamentária de 2011, que será votada no próximo ano. “Temos que achar alternativas dentro do orçamento de 2011 para deixar uma fatia prevendo a pior das hipóteses: ter que pagar as prestações, conforme já foi determinado judicialmente”.

Para Sampaio, os trabalhos legislativos de 2010 deverão ser influenciados pela campanha eleitoral, principalmente pela disputa para deputado estadual e federal. O parlamentar pedetista observa que a cidade pode ser beneficiada por investimentos pré-eleitorais. “Sabemos que em ano político acontecem obras. Seria hipocrisia dizer o contrário”, reconhece.

Foto: Cíntia Ferreira

Prefeito retira projeto do Plano Diretor

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O prefeito de Santa Rita do Sapucaí, Paulo Cândido da Silva (PV), solicitou à Câmara Municipal na última segunda-feira, 30, a retirada do projeto de lei complementar que criaria o Plano Diretor Participativo (PDP). Silva atendeu a uma solicitação do vereador João Paulo Sampaio (PDT) endossada pelos outros nove parlamentares santa-ritenses na sessão ordinária de 24 de novembro.

Sampaio alega que o documento protocolado na Câmara em agosto desagrada comerciantes, produtores rurais e proprietários de imobiliárias. “Alguns itens engessariam o desenvolvimento econômico”, opina o vereador, citando como exemplos a ideia de conter a expansão urbana além dos limites da BR-459 e a sugestão de tombamento das casas da rua Silvestre Ferraz (rua da Ponte).

O parlamentar se diz favorável à aprovação de “um plano diretor que atenda aos reais interesses dos cidadãos”. Por isso, defende que o conteúdo do PDP seja novamente debatido pela sociedade santa-ritense. Sampaio conta que não participou das discussões promovidas pela Prefeitura de 2006 a 2007 porque teria havido “pouca sensibilização” sobre o tema na época.

O vereador destaca que a gestão democrática é uma das diretrizes do Plano Diretor. Ele revela que a Câmara planejava dezenas de emendas ao projeto, mas optou por ouvir a população antes de votar possíveis alterações. “Se o Plano Diretor for feito de cima para baixo, quebra a questão da gestão democrática. Não é um plano de um governo ou de um prefeito; é um plano de uma cidade que planeja o seu desenvolvimento”.

O prefeito de Santa Rita foi procurado por telefone para justificar o recuo, mas sua assessoria de imprensa informou que os esclarecimentos deverão ser prestados na próxima semana.

Novos dirigentes metalúrgicos tomam posse

[Nota de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

Foram empossados na noite de 28 de novembro os 17 novos dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Santa Rita do Sapucaí, Conceição dos Ouros e Cachoeira de Minas (Sindmetsrs). A nova diretoria havia sido eleita em junho, com 93% dos votos, para o quadriênio 2010/2014. A presidente da organização sindical, Maria Rosângela Lopes, foi reconduzida para o cargo.

A cerimônia foi acompanhada por aproximadamente 200 pessoas, entre as quais representantes de sindicatos de São Paulo, Ipatinga, Três Corações e Sete Lagoas. Os integrantes da nova diretoria receberam seus diplomas das mãos de Delson José de Oliveira, presidente da Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos de Minas Gerais.

Em discursos, Oliveira e o gerente regional do Trabalho e Emprego de Pouso Alegre, Flávio Lúcio Andrade, destacaram a importância do Sindmetsrs para o setor sindical no Sul de Minas.

Foto: Silvia Rafael

Padre José recebe homenagem do Judiciário

[Matéria de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O monsenhor José Carneiro Pinto, principal líder da Igreja Católica em Santa Rita do Sapucaí, foi homenageado pelo Poder Judiciário na última quinta-feira, 3. ‘Padre José’ recebeu a Medalha Desembargador Hélio Costa em solenidade realizada no Santuário de Santa Rita de Cássia. A comenda foi entregue ao sacerdote em reconhecimento à sua colaboração com o trabalho da Justiça em Minas Gerais.

José Carneiro Pinto nasceu em 1921 na cidade de Itajubá, mas sua família transferiu-se para Santa Rita quando ele ainda não havia completado dois anos. Ordenado em 1946 na Catedral Metropolitana de Pouso Alegre, atuou em vários municípios sul-mineiros. Foi vigário cooperador de Paraisópolis e vigário ecônomo em Conceição dos Ouros e Consolação. Padre José dirigiu a Paróquia de Santa Rita de Cássia por 40 anos (1957 a 1997), mandato mais longo da história da instituição.

Hoje pároco emérito de Santa Rita, o monsenhor não se dedicou apenas ao trabalho pastoral na cidade. No final da década de 1950, colaborou com Sinhá Moreira na fundação da primeira escola latina de ensino técnico em eletrônica. Como pároco, criou a Fundação Educandário Santarritense e coordenou a construção de dezenas de capelas e igrejas. Segundo a Paróquia de Santa Rita, Padre José celebrou, até 1996, mais de 7,2 mil casamentos e 30,5 mil batizados.

O sacerdote de 88 anos é o sétimo homenageado pelo Poder Judiciário na comarca de Santa Rita desde 1996. Já receberam a Medalha Desembargador Hélio Costa o servidor público Aídio Ribeiro, a empresária Isabela Carneiro Seda, o médico Jorge Toledo Rennó, os advogados José Junqueira e Luiz Rennó Mendes e a professora Rachel Guido Rocha Lemos. Os agraciados são escolhidos por uma comissão formada pelo juiz diretor do Foro da Comarca, promotor de Justiça, prefeito, presidente da Câmara Municipal e presidente da subseção da OAB. A honraria é entregue a cada dois anos e recebeu o nome de Hélio Costa por conta da atuação deste desembargador em tribunais mineiros.

Renovar para melhor

Há alguns anos, em entrevista a uma pequena emissora de TV, o então deputado federal Ricardo Izar (1938-2008) comentou que, a cada eleição legislativa, percebia que o Congresso Nacional se renovava “para pior”. Bem ou mal, Izar cumpriu seis mandatos no parlamento brasileiro e, portanto, sabia o que estava dizendo.

Não se inventou a corrupção da noite para o dia, ou numa década, ou num governo. Considerando os últimos 24 anos de presidentes civis, é inevitável mencionar as concessões de rádio e TV distribuídas por José Sarney, as traficâncias do tesoureiro de campanha de Fernando Collor, as privatizações suspeitíssimas de Fernando Henrique e, claro, a grave denúncia de compra de apoio pelo governo Lula da Silva. Na maioria dos casos, a lama respinga no parlamento ou brota dos gabinetes do Poder Legislativo.

Na semana passada, parte do esgoto político de Brasília chegou à superfície. Súbito, o governador do Distrito Federal, o itajubense José Roberto Arruda, começou a ser arrastado por uma enxurrada de denúncias. A triste novidade (para Arruda) é o registro em vídeo da distribuição de dinheiro de origem desconhecida para deputados distritais e assessores palacianos. O governador tem direito e dever de se defender, mas não será fácil comprovar que pacotes de cédulas escondidas até em roupas íntimas servissem para comprar panetones.

O affair Arruda exemplifica a fórmula básica da corrupção na política: Executivo corruptor somado a Legislativo corruptível resulta em pilhagem sem limites. Como se não bastasse este escândalo de fazer inveja a Edir Macedo, a imprensa divulga uma lista de sete deputados que teriam empregado dinheiro público na campanha eleitoral de 2008 – entre eles, Fernando Gabeira.

Num ambiente de “Somos todos iguais nesta noite”, ganham força os movimentos pelo voto nulo. Uma das mensagens mais divulgadas é “Não reeleja ninguém”. Impossível. O voto nulo torna nula a capacidade de influenciar o resultado, ou seja, mantém o status quo. Só valem os votos válidos, como o próprio nome indica. Quem vota num candidato aparentemente honesto corre o risco de eleger um notório gângster do mesmo partido, mas tem, ao mesmo tempo, a chance de renovar para melhor.