4 de dez de 2009

Estação poderá ter oficinas de teatro, mas falta espaço para artesãos

[Reportagem de Jonas Costa para a Gazeta do Vale]

O antigo terminal ferroviário de Santa Rita do Sapucaí abrigou um centro de artesanato até março deste ano. O prédio está fechado há quase nove meses e os 118 artesãos que lá expunham suas peças ainda não recuperaram seu espaço. A Estação do Artesanato foi criada em setembro de 2007 por meio de um convênio entre a Prefeitura e a Associação dos Artesãos Santarritenses (Asas do Sapucaí). O documento deixou de vigorar em setembro de 2008 e não foi renovado pela administração municipal.

O imóvel abandonado pertence ao governo federal e foi cedido à Prefeitura em 1990 pela extinta Rede Ferroviária Federal (RFFSA). O termo de cessão autoriza o funcionamento de um centro cultural no prédio por tempo indeterminado. Na época do fechamento da Estação do Artesanato, a Procuradoria Geral do Município alegou que a Asas do Sapucaí não atuava como “casa de cultura” e que faltava uma lei municipal autorizando o uso do imóvel para venda de peças artesanais.

A associação de artesãos suspendeu sua inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) na sexta-feira passada, 27. O último presidente da entidade, Sílvio Simões, aponta a falta de apoio do poder público como principal razão da desativação. Simões diz que a escassez de recursos o obrigou a montar prateleiras com sucata e até com uma porta de guarda-roupa de sua família. Ele relata ter assumido algumas despesas da associação, como material de escritório e contas de água e luz. Para encerrar o CNPJ, segundo o ex-dirigente, foram gastos R$ 500 do próprio bolso.

Embora reclame do prejuízo financeiro, Simões cita o fechamento da associação e a dispersão dos artesãos como suas piores perdas. “Quem mais perdeu foram os artesãos”, comenta. O microempresário Edvaldo Quirino de Souza, que vendia derivados do milho na estação, conta que o fim da associação o fez mudar de ramo, reduziu a renda familiar e interrompeu o curso técnico de um de seus filhos. Para Quirino, o atual governo municipal teria se recusado a apoiar a Estação do Artesanato para não dar continuidade a um projeto inaugurado pelo ex-prefeito Ronaldo Carvalho (PSDB), cassado em 2008. “Mudou o governo, acaba tudo. Quem iria colocar vela em cima de um bolo que a outra administração fez?”

A costureira Emília Soares Pereira também foi prejudicada pela desativação do centro de artesanato. “Eu perdi. Perdi no sentido de não fazer aquilo que gosto. E perdi uma renda que não era uma fortuna, mas ajudava a família”, lamenta. Ela e cinco filhas produzem trabalhos manuais com diferentes técnicas e materiais. Sem espaço para expor e vender as peças, a família guarda em casa dezenas de caixas com bonecas de pano, enfeites de Natal, bonecos de biscuit, jóias e muitos outros artigos de alta qualidade. Emília conta que a comissão de artesanato criada pela Prefeitura em março só a convidou para uma reunião e não produziu resultados práticos.

A comissão foi uma das propostas apresentadas por representantes do governo municipal logo após o fechamento da Estação do Artesanato. Em ofício enviado à Asas do Sapucaí no dia 27 de março, a Divisão de Cultura da Prefeitura comunicou a criação de “uma nova estratégia para a divulgação dos produtos artesanais feitos por artistas da cidade”. Nesse documento foi anunciada a futura instalação de um ponto de informações turísticas no antigo terminal ferroviário, “com a exposição permanente de trabalhos dos artesãos”. Oito meses depois, a administração municipal planeja promover oficinas de teatro na estação, mas ainda não tem metas claras para valorizar o artesanato local.

O coordenador de Cultura da Secretaria Municipal de Educação, Breno Luís Costa de Mendonça, não soube informar à reportagem se a comissão de artesãos tem se reunido. Mendonça desconhece projetos voltados exclusivamente para o artesanato, mas destaca que o setor deve ser beneficiado pelo retorno de Santa Rita ao Circuito Turístico Caminhos do Sul de Minas. Segundo o coordenador de Cultura, a criação do Conselho Municipal do Turismo, com representantes dos artesãos, incentivará a descoberta de uma identidade do artesanato santa-ritense.

O assessor do Poder Executivo Janilton Prado diz que a Prefeitura de Santa Rita pretende criar um projeto semelhante ao Mercado da Arte de Cachoeira de Minas, mas ainda não dispõe de espaço físico para tanto. Prado acredita que os artesãos santa-ritenses precisam se mobilizar para conquistar um novo espaço. “Falta envolvimento, falta vontade de juntar um grupo e vir à Prefeitura para falar assim: ‘Precisamos de um espaço para tantas pessoas’. Aí eu tenho certeza de que a Prefeitura vai arrumar uma solução”.

Oficina de teatro – De acordo com Breno Mendonça e Janilton Prado, as oficinas de teatro na estação deverão ser iniciadas no primeiro semestre de 2010. Prado explica que o teatro será utilizado como “ferramenta de auxílio pedagógico” à rede municipal de ensino. Adultos e idosos, segundo ele, também poderão participar das oficinas, que serão desenvolvidas por voluntários da Associação Cultural e Produções Artísticas Band-Aid. Ao ser entrevistado pela Gazeta, Prado disse que estudará a possibilidade de incluir oficinas de artesanato no projeto.

Mendonça afirma que o prédio precisa de “adaptações internas” e de um guarda-corpo entre a calçada e a rodovia BR-459. Entretanto, o coordenador de Cultura garante que serão mantidas as características originais da antiga estação, inaugurada em 1894. O contrato entre a RFFSA e o Município estabelece que o estilo arquitetônico deve ser preservado e que “nenhuma benfeitoria poderá ser realizada no imóvel [...], sob pena de rescisão contratual”.

Foto: Jonas Costa

Um comentário:

OFICINA TECNOLÓGICA disse...

"Prefiro não comentar" como diz a personagem do "Sai de Baixo"