4 de dez de 2009

Renovar para melhor

Há alguns anos, em entrevista a uma pequena emissora de TV, o então deputado federal Ricardo Izar (1938-2008) comentou que, a cada eleição legislativa, percebia que o Congresso Nacional se renovava “para pior”. Bem ou mal, Izar cumpriu seis mandatos no parlamento brasileiro e, portanto, sabia o que estava dizendo.

Não se inventou a corrupção da noite para o dia, ou numa década, ou num governo. Considerando os últimos 24 anos de presidentes civis, é inevitável mencionar as concessões de rádio e TV distribuídas por José Sarney, as traficâncias do tesoureiro de campanha de Fernando Collor, as privatizações suspeitíssimas de Fernando Henrique e, claro, a grave denúncia de compra de apoio pelo governo Lula da Silva. Na maioria dos casos, a lama respinga no parlamento ou brota dos gabinetes do Poder Legislativo.

Na semana passada, parte do esgoto político de Brasília chegou à superfície. Súbito, o governador do Distrito Federal, o itajubense José Roberto Arruda, começou a ser arrastado por uma enxurrada de denúncias. A triste novidade (para Arruda) é o registro em vídeo da distribuição de dinheiro de origem desconhecida para deputados distritais e assessores palacianos. O governador tem direito e dever de se defender, mas não será fácil comprovar que pacotes de cédulas escondidas até em roupas íntimas servissem para comprar panetones.

O affair Arruda exemplifica a fórmula básica da corrupção na política: Executivo corruptor somado a Legislativo corruptível resulta em pilhagem sem limites. Como se não bastasse este escândalo de fazer inveja a Edir Macedo, a imprensa divulga uma lista de sete deputados que teriam empregado dinheiro público na campanha eleitoral de 2008 – entre eles, Fernando Gabeira.

Num ambiente de “Somos todos iguais nesta noite”, ganham força os movimentos pelo voto nulo. Uma das mensagens mais divulgadas é “Não reeleja ninguém”. Impossível. O voto nulo torna nula a capacidade de influenciar o resultado, ou seja, mantém o status quo. Só valem os votos válidos, como o próprio nome indica. Quem vota num candidato aparentemente honesto corre o risco de eleger um notório gângster do mesmo partido, mas tem, ao mesmo tempo, a chance de renovar para melhor.

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